Flanelinha
Máfia

FLANELINHA É MÁFIA?

*Por Eduardo Matos de Alencar

Flanelinhas são alvos de uma polêmica antiga no Brasil. Ameaça, extorsão, venda ilegal de vagas, depredação de patrimônio, roubo, tráfico de drogas e homicídio são alguns dos crimes frequentemente imputados a essas personagens típicas das cidades brasileiras. O problema parece ter relevância para tanta gente que até foi criada uma Liga Nacional Anti-Flanelinha, cujo site procura fazer um apanhado dos crimes cometidos pelos guardadores de carros clandestinos em todo o país. 

A pouco confiável historiografia de internet diz que a profissão foi criada por Getúlio Vargas nos anos 1940, como alternativa de emprego para os pracinhas que retornavam da guerra. Não demorou até que se fundasse a Associação dos Guardadores de Automóveis do Estado da Guanabara, mais tarde transformada em sindicato. A atividade, no entanto, só foi regulamentada em 1977, pelo então presidente Ernesto Geisel, com o decreto número 79.797.

Desde o início, as denúncias de abuso sempre estiveram presentes. Com a degradação progressiva da segurança pública nas últimas décadas, a pressão dos proprietários de veículos tem levado à criação de vários projetos de lei e iniciativas policiais que visam acabar com a atividade, todas em vão. 

Como sempre, há vozes contrárias às tentativas de repressão. Jornalistas, intelectuais e ativistas de esquerda defendem o lado social da atividade, que fornece renda para parcela da população empobrecida do país. Nesse sentido, não foram poucas as tentativas de regulamentar a profissão e exercer controle para evitar abusos, todas elas igualmente ineficazes.

Pelo visto, existe uma caveira de burro enterrada nesse campo. Por que reprimir ou controlar a atuação dessas personagens urbanas parece tão difícil? A resposta passa pelo entendimento de alguns aspectos de sociologia econômica, particularmente o debate em torno do problema da confiança e da venda de proteção privada.

Guardadores de veículo autônomos são profissionais do mercado informal de proteção privada. A demanda e a oferta por serviços de proteção são regidas pelo nível de confiança nas relações sociais em determinadas sociedade. Confiança pode ser definida como o nível da probabilidade subjetiva que fazemos uso para estimar o curso futuro de ação de outras pessoas. Como nem sempre posso ter uma estimativa correta sobre as ações do próximo, é natural que procure organizações que garantam a previsibilidade dessas relações. É assim que nasce o mercado de proteção.

Em sociedades onde grassa a desconfiança, é normal que surjam pessoas e organizações especializadas na provisão de serviços que facilitam a cooperação. Essa é uma das principais funções das polícias e das outras instituições do Sistema de Justiça Criminal. Inevitavelmente, a abrangência e a eficiência dessas organizações vai pautar a demanda e a oferta do mercado privado, seja ele formal ou informal. Empresas de proteção privada, sistemas de patronagem e outros tipos de intermediários se encontram no primeiro grupo. Redes de clientelismo, grupos de vigilantes armados, máfias, grupos de extermínio e flanelinhas fazem parte do segundo.

A desconfiança pode ser resultado de altos índices de criminalidade, baixa eficiência e outros fatores menos óbvios, como a desorganização do espaço urbano. Afinal, é mais fácil que um flanelinha lhe convença a pagar pelo seu serviço em ruas pouco movimentadas do que em locais monitorados por vigilância eletrônica.

O aspecto territorial da venda de proteção é particularmente importante para o entendimento dessa atividade. Vender proteção é ter que se fazer presente, expor-se a riscos e angariar reputação que seja percebida como ameaça por predadores eventuais. Esse caráter territorial faz com que a força ou o acordo ilícito componham parte necessária do modus operandi do flanelinha. Também contribui para a segmentação do mercado e os conflitos referentes a pontos mais lucrativos, com maior rotatividade de veículos. O preço cobrado, por sua vez, também varia conforme localização, que influencia a percepção de insegurança dos clientes, a quantidade de vagas disponíveis e de clientes dispostos a pagar pelo serviço.

Os efeitos laterais ou externalidades da venda de proteção privada ajudam a explicar a grande incidência de comportamentos desviantes dos flanelinhas. Afinal, a simples existência de clientes interessados na compra de proteção já aumenta os riscos para os que não consumem o produto, que se tornam alvos preferenciais para a escolha de eventuais predadores. Por outro lado, o flanelinha é obrigado a lidar com pessoas que se beneficiam de seu serviço pelo simples fato de compartilhar com seus clientes o mesmo espaço. Agindo honestamente, não se pode vigiar o carro A sem vigiar os carros vizinhos B e C por tabela.

Por isso a extorsão, a ameaça e os acordos ilícitos são quase que imperativos para o exercício da atividade. O flanelinha que não representa um perigo em potencial para seus clientes tende a diminuir a desconfiança, contribuindo para que a proteção deixe de ser percebida como serviço necessário.  Do ponto de vista dos predadores, o flanelinha que não faz acordos e nem oferece riscos reais é sempre uma testemunha em potencial que deve ser coagida mais cedo ou mais tarde.

Esses elementos ajudam a compreender a resiliência do flanelinha enquanto problema urbano das cidades brasileiras. Reprimir ou regulamentar uma profissão que se institui a partir do sucesso em explorar a desconfiança é sempre complexo. Nesse ponto, o flanelinha é menos obra de um governo, do que da expansão do consumo de veículos numa sociedade com baixos índices de confiança. A estruturação progressiva de um mercado informal traz consigo dificuldades intrínsecas para a repressão de um serviço que muitos usuários procuram e desejam. Por outro lado, as falhadas tentativas de regulação esbarram nos incentivos estruturais desse mercado para a prática de extorsão e ameaça. E o envolvimento contínuo do flanelinha em atividades limítrofes, entre o informal e o ilegal, facilita o desenvolvimento de carreiras criminosas mais lucrativas e de maior potencial ofensivo.

Lidar com serviços que exploram a desconfiança na sociedade não é simples, como prova a história de sociedades que até hoje lidam com problemas endêmicos associados à máfia – Itália, Japão, Rússia, China etc. A solução passa pela gestão de prioridades do aparto policial, mas também é preciso desenvolver estratégias para fomentar a confiança na população, minando as bases para o exercício desse tipo de atividade. Afinal, medidas repressivas rigorosas podem gerar prejuízos mais difíceis de administrar a médio prazo. Há estratégias individuais e coletivas que podem auxiliar na redução de prejuízos de proprietários de automóveis. Algumas alternativas para lidar com a desconfiança e seus empresários serão tema de outros artigos neste blog.

Finalmente, quanto ao aspecto social da atividade do flanelinha, não vale a pena gastar mais que um parágrafo a respeito. Em menos de cinco minutos, é possível elaborar uma lista extensa de serviços informais que podem ser oferecidos nas ruas das grandes cidades que não geram externalidades negativas como o flanelinha. Vender uma ampla gama de produtos nas ruas e sinais de trânsito e até mesmo limpar o vidro dos automóveis são alternativas ao alcance de qualquer desempregado que deseje abandonar a atividade. Um pouco de realismo sempre faz bem ao debate.

 

*Eduardo Matos de Alencar é editor do site Proveitos Desonestos. Doutorando em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), possui experiência na área de gestão de políticas de segurança e desenvolvimento em organizações internacionais e governos estaduais e municipais.

Join the discussion

  1. Pingback: Existe honra entre bandidos?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *