briga_torcida
Torcidas organizadas

TORCIDAS ORGANIZADAS E OCUPAÇÃO DO ESPAÇO URBANO

*Por Glauber Lemos

Já há algum tempo que o noticiário esportivo brasileiro se assemelha ao policial. Os problemas são de diversas ordens: escândalos de doping, envolvimento de dirigentes com esquemas internacionais de corrupção, compra de árbitros para manipulação de resultados em favor de grupos de apostadores, jogadores envolvidos em crimes que vão desde a implicação com drogas até a participação em assassinatos. Contudo, dentre todos estes escândalos, têm destaque as torcidas organizadas de futebol e a participação de seus membros em atividades que vão do vandalismo ao homicídio.

Os dados impressionam: entre 2010 a 2016, já foram contabilizadas no Brasil 114 mortes relacionadas a brigas de torcidas, segundo dados do pesquisador Maurício Murad. Em 2016, até o mês de julho, foram registrados 5 casos de pessoas mortas em circunstâncias provocadas por organizações de torcedores: foram 2 mortos em conflitos no Ceará, 1 em São Paulo, 1 no Rio de Janeiro e 1 no Rio Grande do Norte. Mas a evolução desses dados remete a um passado mais distante, que merece um pouco de nossa atenção.

A organização de torcedores em torno do futebol é fenômeno antigo, data dos anos 1940 quando as primeiras torcidas uniformizadas, as charangas, começaram a aparecer motivadas pelo crescimento do clubismo brasileiro e pela popularização do futebol. Este modelo de torcidas, contudo, dista muito do que conhecemos atualmente, uma vez que se tratavam essencialmente de pequenos grupos munidos de instrumentos musicais e gritos de guerra para incentivar os times. É somente entre os anos 1960 e 1970 que as primeiras torcidas organizadas, nos moldes como as conhecemos, começarão a marcar território. A diferença entre estas organizações e as charangas diz respeito sobretudo à sua estrutura de funcionamento.

Torcidas organizadas são dotadas de estatutos próprios e de uma estrutura administrativa impessoal e burocratizada, com hierarquia rígida, corpo de especialistas operando funções de liderança e códigos normativos típicos de culturas organizacionais extremamente sofisticadas. Ademais, é comum encontrarmos na estrutura de operações das torcidas uma divisão entre comandos, esquadrões, pelotões, famílias e etc., em que cada uma desses segmentos é responsável pela ocupação de determinada área da cidade, rivalizando com os inimigos (torcidas de clubes rivais) e reforçando os laços de colaboração com os aliados.

De um ponto de vista das relações cotidianas entre os torcedores que participam dessas organizações, ainda é possível destacar um conjunto significativo de normas que são, ao mesmo tempo, produto da cultura organizacional das torcidas e reflexo das atividades que elas engendram. Dentre essas regras, há a preservação do anonimato dos torcedores, a lei do silêncio (omertà), a obrigatoriedade da vingança (vendetta) e a proibição, nem sempre seguida, de se pisar na cabeça do adversário em uma briga.

No que diz respeito à dinâmica de violência que permeia as atividades das torcidas, ela começa a se fazer mais sensível a partir do final dos anos 1980, após o assassinato de um dos líderes de uma torcida organizada do Palmeiras, em São Paulo. É nesse momento que a cobertura da imprensa começa a chamar a atenção para a escalada de mortes associadas às torcidas e os primeiros eventos envolvendo acadêmicos e organizações do poder público começam a direcionar atenção para o fenômeno.

Em 1995 a briga entre torcedores de Palmeiras e São Paulo no jogo final da Copa São Paulo marca mais um momento importante na história das torcidas organizadas de futebol e na dinâmica de violência programada entre estas organizações criminosas. A pressão dos meios de comunicação e de parcela (mínima) de dirigentes, que foram obrigados a encarar os prejuízos econômicos e políticos diante da morte de um adolescente em frente às câmeras de televisão, resultou em uma maior repressão policial à atuação de torcedores e fiscalização do perímetro dos estádios de futebol, de modo a impedir que estes espaços se tornassem novamente local de conflitos.

Contudo, o que observamos atualmente é que a relação entre as torcidas não compreende apenas o espaço físico dos estádios, algo que se torna explícito mediante o fato de que entre as cinco mortes ocorridas a partir de conflitos entre torcedores em 2016, nenhuma delas tenha se dado próximo ou internamente aos estádios. O que explica isso?

As interações e os conflitos entre os torcedores não envolve apenas a briga. Este é o ato final da disputa e consagra todo um programa de dominação territorial previamente orientado. Nesse sentido, os esquadrões e pelotões das torcidas acabam cerceando o território urbano e criando regiões fronteiriças que, em dias de jogos, são rompidas pelo movimento dos comandos rumo aos estádios. Em meio à guerra urbana pela tomada de espaços, as rotas de acesso aos territórios inimigos e os meios de transporte que cobrem essas rotas são os principais cenários do conflito.

A plenitude do comportamento territorial não reside apenas na fixação de pontos de dominação. Ao longo do trajeto, os subgrupos de torcedores vão se reunindo gradualmente ao mesmo tempo em que apostam no poder de intimidação do uso da força para estabelecer a dominação temporária dos espaços inimigos. Desse modo, cenas de torcedores pulando catracas e quebrando janelas de ônibus, forçando motoristas a não parar nos pontos são expressões da afirmação territorial de um pelotão ou comando. Assim, é compreensível inclusive que torcidas organizadas de um mesmo clube sejam capazes de entrar em conflitos entre si, uma vez que as lutas por territórios pouco ou nada se relacionam com as cores da camisa defendida em campo.

A depredação de ônibus e trens de metrô, mesmo em situações em que não há confronto direto entre rivais, é sintomática da ampliação do poder de dominação territorial que rege uma parcela das atividades dos membros de torcidas organizadas. A lógica, aqui, é de fluidez. O que importa ao suposto torcedor não é o domínio permanente do território, mas o uso temporário que representa uma afronta ao rival. A circulação é o fim, de modo que, comparadas às organizações criminosas para o tráfico de drogas (como o Comando Vermelho), as torcidas organizadas ensejam uma nova lógica de ocupação territorial que dificulta as estratégias de atuação na repressão de seus movimentos.

Nesse jogo de “rouba-bandeira” entre torcidas organizadas, o combate direto é a etapa final, que nem sempre se realiza. É justamente o momento de rompimento dessas fronteiras o ponto ideal para que o conflito ocorra. Contudo, o que se tem percebido, é que nessa lógica em que a circulação de indivíduos ganha um papel destacado na compreensão da dinâmica de uma parcela da violência urbana, os membros de torcidas, entre si, têm sido mais eficazes em instalar mecanismos de vigilância do que o poder policial. Parcela significativa das mortes ocorridas nos últimos anos se dá, sobretudo, em função de emboscadas armadas entre torcidas em contextos que, diferentemente das brigas marcadas pelas redes sociais de internet, têm se mostrado de difícil previsibilidade para a estratégia policial.

 

*Glauber Lemos é editor do site Proveitos Desonestos. Jornalista e sociólogo, é doutorando em sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP).

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *