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Confiança

POR QUE MAFIOSOS USAM ÓCULOS ESCUROS?

Por Eduardo Matos de Alencar*

A utilização de óculos escuros para proteção dos olhos é bem recente na história da humanidade. Os primeiros óculos escuros vendidos em larga escala surgiram no século XX, quando Sam Foster, fundador da companhia Foster Grant, vendeu os primeiros pares nas praias de Atlantic City em 1929, popularizando rapidamente seu uso entre os banhistas. 

Os registros mais antigos, porém, apontam para outra funcionalidade do objeto. No século XIV, juízes chineses usavam lentes de quartzo cor de fumaça para esconder suas expressões no tribunal. A avaliação dos juízes em relação à credibilidade das provas deveria permanecer em segredo até o momento da conclusão do julgamento. Ao esconder uma das partes mais expressivas do corpo humano, os óculos impossibilitavam que outras pessoas percebessem a direção do olhar, mudanças de sentimento ou nível de interesse. Sem acesso às janelas da alma, era fácil pensar que não havia qualquer alma ali, mas tão somente a justiça na sua forma mais pura e impessoal.

A relação entre óculos escuros e uma aparência intimidadora é mais recente no Ocidente. O artigo aparece como souvenir de praticantes de esportes radicais já nos anos 1930. A relação entre os óculos e a imagem de um cara durão se generaliza a partir da I Grande Guerra – numa fotografia da década de 1940, John Ford já aparece usando jaqueta de couro, boina de piloto, óculos escuros e cachimbo entre os lábios.

Nas infinitas cadeias de imitação que estruturam as relações humanas, o coquete, que aparenta não olhar ou ligar para ninguém, é sempre o mais visado. Talvez por isso a associação do objeto com a imagem de pessoas legais e duronas tenha se popularizado tão rapidamente. Gun Crazy, do diretor Joseph H. Lewis, é possivelmente o primeiro filme no qual aparecem gangsters utilizando o objeto. O engraçado é que não existe outro registro da época que associe gangsterismo e óculos escuros. Depois de sua generalização pelo cinema, entretanto, os óculos se tornaram assessório essencial para qualquer profissão ou personalidade que queira aparentar dureza de caráter – militares, detetives, policiais e… mafiosos.

O caso da relação entre óculos escuros e máfia é bastante interessante. No seu aspecto econômico, máfias são organizações que se estruturam a partir da venda de proteção privada, um nicho bastante lucrativo em contextos marcados por baixos níveis de confiança nas relações sociais. Quando não se sabe o que esperar das pessoas com quem se estabelece transações, inclusive as integrantes daquelas instituições que deveriam regulá-las, como a polícia e os juízes, é natural que se procure pessoas capazes de garantir sua viabilidade. Mafiosos oferecem esse tipo de serviço, que nem sempre toma a forma de uma extorsão explícita.

No mercado da desconfiança, qualquer instrumento que sirva para aumentar o nível de imprevisibilidade nas relações humanas é sempre muito útil. Ao conferir ao mafioso uma aparência de frialdade e dureza, os óculos escuros possibilitam a intimidação não só de clientes, mas também de predadores em potencial.

A arma de ataque, porém, também serve como defesa. Para o cidadão comum, andar de óculos escuros nas ruas das grandes cidades pode ser um bom mecanismo dissuasório para assaltantes e outros predadores urbanos. O fator surpresa é uma arma fundamental para o sucesso de uma abordagem, reduzindo o tempo de reação e abalando a moral da vítima. Na hora de escolher um alvo no meio da multidão, é mais provável que se opte por quem se sabe para onde está olhando. Lembre-se: nenhum bandido quer correr o risco de mexer com um cara durão.

*Eduardo Matos de Alencar é editor do site Proveitos Desonestos. Doutorando em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), possui experiência na área de gestão de políticas de segurança e desenvolvimento em organizações internacionais e governos estaduais e municipais.

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