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Arte

A VIDA IMITA A ARTE, ATÉ NO CRIME

Por Eduardo Matos de Alencar*

Nos dois últimos séculos, criminosos tem sido fonte permanente de inspiração e renda para escritores, cineastas, músicos e toda sorte de artistas e profissionais da cultura. A atração que essas figuras exercem sobre o grande público parece ser quase universal, garantindo sucesso de vendas e recordes de bilheteria em vários países do mundo. É como se existisse uma aura mágica em torno daqueles que desafiam a lei e a moralidade, fazendo disso um estilo de vida, em que pese a rejeição pública do conteúdo mesmo de suas ações.

Esse fenômeno tem causas múltiplas e complexas, entre as quais poderíamos citar o caráter mimético das relações humanas. Como o rapaz ou a moça mais popular da escola, que se torna objeto de atenção geral por se comportar como se não ligasse para ninguém, alguns malfeitores se transformam em verdadeiros ídolos das sociedades na mesma medida em que rejeitam expressamente os princípios nas quais elas se esteiam.

Na verdade, trata-se de um jogo duplo interessante. Não é incomum que obras inspiradas em criminosos reais também sirvam de inspiração para esses mesmos criminosos. É o caso, por exemplo, do best-seller O Poderoso Chefão, escrito por Mario Puzo em 1969, adaptado para filme por Francis Ford Coppola em 1972, talvez a estória de máfia mais famosa de todos os tempos.

Pouca gente sabe, mas é invenção de Puzo o termo Godfather para nomear o cabeça de uma família criminosa. Após o sucesso da obra, mafiosos começaram a utilizar a alcunha, e o costume moribundo de beijar a mão do chefe da organização foi revivido.  No final dos anos 1970, uma proeminente família aristocrática da Sicília alugou sua propriedade rural para que um chefe mafioso realizasse a recepção do casamento de sua filha. A festa contou com a participação de mais de 500 pessoas, uma audiência que ia ao delírio toda vez que a orquestra tocava The Godfather Waltz, música tema do filme e o maior sucesso da carreira de Nino Rota.

O filme continuou a inspirar inúmeros mafiosos nas décadas seguintes. Em 1991, três donos de empreiteiras da província de Palermo encontraram a cabeça decepada de um cavalo dentro de seus automóveis. A estratégia de intimidação não constava no repertório da máfia antes do sucesso da obra, sendo a cena em que o diretor de estúdio Jack Woltz acorda com a cabeça de seu estimado cavalo ao seu lado, após ter recusado um favor a Don Corleone, invenção do próprio Puzo.

Um soldado mafioso da família Gambino, uma das Cinco Famílias de Nova Iorque, sob o comando de John Gotti, costumava se referir ao seu pistoleiro como “meu Luca Brasi”, nome do assassino mais temido das hostes de Corleone. Outro soldado da mesma máfia disse que tentou uma vez abandonar o crime, mas retornou depois de assistir à película, que o fez sentir saudades de casa. Antonino Calderone, mafioso italiano e colaborador da justiça italiana após sua prisão em 1986, conta que Tòto Di Cristina, inspirado pela leitura do livro, ordenou que seus homens se disfarçassem de médico e assassinassem certos desafetos enquanto dormiam.  

Até mesmo o significado atual do termo mafioso e do seu derivado máfia parece ter sido extraído de uma peça teatral de Placido Rizzoto, I Mafiusi dela Vicaria, estreada em 1863. A obra conta a estória de um temido grupo de prisioneiros na cadeia de Palermo, integrantes de uma associação com padrões particulares de comportamento e hierarquia (incluindo um ritual secreto de iniciação), capaz de influenciar o sistema político e administrativo da Sicília. É a primeira vez que o termo mafiusi aparece como alternativa a camorristi. Sobre esse ponto, há controvérsias se Rizzoto teria obtido informação de um membro real das organizações criminosas que já atuavam como mafiosos ou se essas mesmas organizações teriam passado a utilizar a terminologia a posteriori.

Longe do sotaque italiano e do charme das lentes de Hollywood, o mesmo efeito se verifica em países como o Brasil. Enquanto trabalhava em comunidades pacificadas no Rio de Janeiro, mais de uma vez ouvi que a frase do Sargento Rocha em Tropa de Elite 1 – “quer rir, tem que fazer rir” – não se usava com frequência no vocabulário das comunidades antes do filme. É difícil saber se expressões como “Tá suave”, “Tá tranquilo, Tá Favorável” e “Tá tudo dominado” são invenções artísticas ou musicalizações de usos correntes nas subculturas criminosas e/ou de periferia. Após seguidos sucessos de bilheteria dos filmes de José Padilha, grupamentos especiais de vários estados brasileiros adotaram como símbolo a caveira com a faca atravessada, ou mesmo a própria sigla do BOPE – Batalhão de Operações Especiais.

Ainda no final da graduação, em 2007, assisti a uma abordagem policial de soldados da ROCAM, grupamento motorizado da Polícia Militar de Pernambuco, durante uma calourada na universidade. Particularmente, lembro de um policial de óculos escuros e boina preta que, ao flagrar um gorducho tentando esconder um cigarro de maconha, ordenou que o rapaz o comesse, se não quisesse ir direto para a delegacia. O garoto aceitou engolir o abuso e o baseado, e ainda teve que ouvir uma réplica quase perfeita do discurso do Capitão Nascimento que então andava na boca do povo – É você que financia o tráfico, seu maconheiro, seu merda! E a gente tem que desfazer a merda que você faz etc.

 

*Eduardo Matos de Alencar é editor do site Proveitos Desonestos. Doutorando em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), possui experiência na área de gestão de políticas de segurança e desenvolvimento em organizações internacionais e governos estaduais e municipais.

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