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Crack

O CRACK E A TRANSFORMAÇÃO DAS ATIVIDADES CRIMINOSAS NO BRASIL

*Por Glauber Lemos

A escalada brasileira de violência que nos trouxe ao ponto atual possui alguns eventos de importante destaque. A difusão da cocaína como produto do tráfico e a organização das atividades criminosas em torno das Ligas de Presos, ambas ocorridas nos anos 1970, são um exemplo. Nos anos 1980, a introdução do fuzil como arma de combate urbano entre traficantes no Rio de Janeiro é outro exemplo. Mais recentemente, entre o fim da década de 1980 e início dos anos 1990, uma nova mercadoria produziu mudanças igualmente significativas na lógica de operações criminosas brasileiras: o crack.

Os dados do mais amplo levantamento sobre usuários de drogas realizado no Brasil são indicativos do rápido crescimento do consumo de crack. Embora tenha sido introduzida há menos de trinta anos no país, estima-se que a droga tenha sido utilizada por cerca de um milhão de pessoas ao longo do ano de 2011 , estando presente em todas as regiões brasileiras, com maior concentração de usuários nas regiões sudeste (46% do total) e nordeste (27% do total). Esse consumo é mais recorrente entre homens jovens até 29 anos, sendo que 45% dos usuários travam contato com a droga pela primeira vez antes dos 18 anos de idade.

Devido à sua presença recente e ao fato de ser uma mercadoria ilegal cujas estratégias de produção, distribuição e consumo observam amplas variações entre as regiões brasileiras, o desconhecimento e o fluxo de informações desencontradas são uma barreira para o entendimento do problema. O crack é amplamente divulgado como um subproduto do processo de refinamento da cocaína, o que faria dele uma mercadoria de valor inferior por sua expressiva quantidade de impurezas. Este é o primeiro erro. O crack e a cocaína em pó (ou cloridrato de cocaína) são produtos da pasta base de cocaína e apresentam níveis semelhantes de pureza, variando entre 70 e 80%. Fazem parte dessa família, ainda, drogas como a merla, muito difundida na Argentina, e o oxi.

Todos os derivados da pasta base de cocaína são drogas estimulantes que agem sobre o sistema nervoso central ativando a produção de neurotransmissores como a dopamina. As sensações iniciais causadas pelo uso são de euforia, bem-estar, incremento do prazer sexual, estado de alerta e aceleração do pensamento. A diminuição desses efeitos é sucedida por depressão, fadiga, impulsividade e irritabilidade. A abstinência prolongada reforça os contra efeitos, elevando-os em níveis significativos.

A diferença crucial está no modo como a droga é administrada e nos reflexos sociais dessa ação. A cocaína consumida fumada sob a forma de crack é absorvida pelas vias áreas, o que torna seus efeitos mais acelerados. A fumaça tóxica inalada é incorporada ao organismo pelos alvéolos pulmonares e o início dos efeitos eufóricos se dá entre 8 e 10 segundos após o consumo, alcançando o ápice em torno de 5 a 10 minutos após o início da utilização. A cocaína em pó, por sua vez, leva entre 5 e 10 minutos para ser absorvida e o pico dos efeitos ocorre entre 30 e 60 minutos depois do uso. Essa diferença é crucial, uma vez que a dinâmica da utilização é muito mais acelerada no consumo do crack, os efeitos causados também desaparecem mais rapidamente e os reflexos posteriores ao uso, por conseguinte, são ainda mais predominantes.

Compulsividade: esta é a característica central do usuário contumaz de crack. Embora exista uma parcela de usuários não contumazes, ela é inferior aos de usuários de outras drogas, sendo o uso compulsivo mais frequente. O ciclo de uso nas cracolândias, por exemplo, dura dias seguidos que são interrompidos apenas pela exaustão física ou pela total ausência da droga. O usuário compulsivo, nesse sentido, acaba vivenciando efeitos distintos, sobretudo síndromes paranoides em que são comuns o sentimento de perseguição constante ou a identificação de qualquer pessoa como uma ameaça em potencial (frequentemente, um policial).

Mais além, a compulsividade leva à perda de autocontrole e à tomada de decisões violentas para saciar a abstinência. Uma vez que as bocas de fumo operam a partir do escambo de mercadorias, com o intuito de eliminar a abstinência, viciados em crack recorrem ao roubo de celulares e outros produtos para efetuar a troca pela droga. O fato desses roubos, assaltos e furtos ocorrerem em regiões próximas aos pontos de venda resulta em uma atenção policial para os locais de venda com resultados econômicos negativos para o movimento do tráfico. Em parte, isso explica porque, em 2012, traficantes da região do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, proibiram a venda de crack em suas bocas de fumo.

Assim, a difusão do uso do crack possui também relação com o crescimento dos crimes de assalto, furto e roubo nas grandes cidades brasileiras. Entretanto, isso não encerra a lógica de violência relacionada ao tráfico de drogas e ao uso do crack. Ainda devido à compulsão pelo uso, o crack eleva as situações de endividamento e de conflito entre consumidores e vendedores da droga. Em geral, a dívida em si não é problemática, uma vez que sejam respeitados os códigos de conduta das relações entre traficantes e usuários e a não demonstração pública de uso e a interrupção das compras antes da quitação da dívida sejam cumpridas. Esses critérios impostos ao usuário contumaz em abstinência acabam forçando-o à chamada “traição”, ou seja, à compra da droga em uma boca de fumo rival.

O método de resolução de conflitos e de traições em organizações criminosas que operam o tráfico de drogas é conhecido. Viciados considerados traidores são eliminados, o que resulta em crescimento das taxas de homicídio. Some-se a isso as disputas entre grupos de traficantes rivais pelas bocas de fumo nos territórios mais lucrativos para a venda de crack e está pronto o quadro de elevação da violência a novos patamares nas regiões em que o tráfico do crack se expande. Essa disseminação tem ocorrido na velocidade inversa à das capacidades de enfrentamento do problema, seja pela via da repressão ao tráfico, seja pela das ineficientes estratégias de acolhimento do usuário para redução de danos.

Para encerrar, um exemplo útil nos remete à Nova Iorque do início dos anos 1990, quando a escalada de violência naquela cidade chegou ao seu ápice e uma parte extraordinária dos homicídios por lá praticados estava relacionada ao conflito entre traficantes em disputa territorial, ou a cobranças de dívidas de usuários de drogas. Como indicam Johnson, Golub e Dunlap no livro The Crime Drop in America (capítulo 6), mudanças relevantes na forma como as comunidades mais afetadas pelo tráfico passaram a entender o crack foram importantes para a redução dos homicídios.

Juntamente com ação policial rigorosa, houve um aumento da intolerância comunitária ao usuário compulsivo e à formação de grupos de usuários contumazes semelhantes às cracolândias brasileiras, bem como uma rejeição cultural do tráfico sob o entendimento de que o comércio ilegal de drogas era um risco para a vida dos habitantes daquelas regiões. O comportamento público inadequado de traficantes e viciados e a ameaça representada aos membros mais jovens dessas comunidades foi fator fundamental para esse despertar cultural com reflexos diretos na redução de homicídios, o que ocasionou o declínio das atividades ligadas ao tráfico. Desse modo, o fortalecimento da solidariedade comunitária, ponto ainda pouco explorado no Brasil, seja um caminho frutífero para o combate a um dos principais produtos do tráfico de drogas em nossas cidades e ao circuito de violência que seu comércio engendra.

*Glauber Lemos é editor do site Proveitos Desonestos. Jornalista e sociólogo, é doutorando em sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP).

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