Armas são culpadas pelo terrorismo?
Armas

O TERRORISMO CONTRA AS ARMAS

Por Glauber Lemos*

Os recentes ataques terroristas em território americano suscitaram um debate pitoresco. Diante da ameaça dos lobos solitários que atacam locais públicos atirando para onde o olhar aponta, o presidente Barack Obama creditou a culpa do problema às armas. Ora, o tão aclamado líder americano parece esquecer que gatilhos não são puxados sozinhos. Pior do que isso, sua posição reanimou um debate antigo que agora é revivido pelas batalhas das redes sociais.

Desde os anos 1970 que a disputa em torno do controle das armas nos Estados Unidos é pauta dos meios de comunicação. Naquela década, o caos social e a onda de violência que assolavam Nova Iorque somaram-se à presença de um assassino em série que atirava contra suas vítimas com uma arma curta de calibre .44. Na Califórnia, por duas vezes o presidente Gerald Ford se viu em meio a tiroteios públicos que atentavam contra sua vida. Esses ingredientes foram o suficiente para despertar os argumentos dos defensores do desarmamento e do controle mais severo de armas.

Nos anos 1990, os tiroteios públicos em escolas, como no famoso episódio de Columbine, reanimaram os defensores do controle de armas. Todos esses eventos evidentemente foram acompanhados de ampla cobertura da imprensa escrita e televisionada. O jornal mais querido da esquerda mundial, The New York Times, fez uma série de reportagens com dados de reduzida consistência estatística, em que supostamente os tiroteios públicos massificados haviam aumentado em 100% a partir da segunda metade da década de 1990. De um ponto de vista metodológico, essa série era completamente equivocada, como mostra John Lott Jr em seu livro “Preconceito Contra as Armas”. Mas o objetivo da notícia não era apresentar os fatos da realidade.

O que explica essa tendência dos meios de comunicação a se posicionarem com tanta parcialidade em relação ao controle das armas?

No jornalismo há um velho adágio que diz que a manchete “Cachorro morde homem” jamais será notícia, mas “Homem morde cachorro” certamente o será. No debate sobre armas, esses critérios de noticiabilidade se tornam ainda mais perversos: se não há corpo, não há notícia. Tiroteios públicos produzem corpos em quantidade massificada. Casos de pessoas que evitam crimes apenas apontando uma arma para o agressor não produzem cadáver algum. O espírito de trabalho jornalístico parece demonstrar que as histórias frequentemente devem se encaixar nos princípios estabelecidos pela imaginação dos jornalistas que as narram. Desse modo, crimes evitados pelo uso seguro de armas curtas destroem esses princípios. Histórias sobre tiroteios públicos e ameaças terroristas armadas os fortalecem.

Contemporaneamente tais premissas se tornam ainda mais radicais. A falsificação de dados em meio à guerra de narrativas é apenas uma entre as diversas estratégias de disseminação de informações cuja efetividade é analisada a partir de modelos estatísticos sofisticados que apuram a eficiência do fluxo na padronização de comportamentos. Agora a fabricação da notícia ocupa apenas uma das pontas do problema. A divulgação sistemática e massificada nas redes sociais é o percurso imediato para a aceitação pública do fato veiculado.

Agora todos podem se posicionar sobre a relação entre armas e terror, seja em uma conversa de bar entre estudantes universitários ou em um bate papo entre parentes. O inimigo está claro, e o presidente Obama está ciente do fato. As armas precisam ser eliminadas ou melhor controladas.

Contudo, a relação entre armas e terrorismo feita por Obama não explica porque o Estado de Israel, sem dúvida o país do mundo que mais sofre com o problema do terrorismo, possui mais de 10% de sua população armada e costuma aumentar as concessões de porte para armas após ataques terroristas. A mesma narrativa esquece que países com severos mecanismos de restrição ao uso de armas, como o Brasil e a Rússia, ostentam índices de criminalidade urbana acentuadíssimos ao mesmo tempo em que vedam as possibilidades comparativas de dados entre o uso de armas para prevenção de crimes e seu uso para o cometimento de infrações.

Tais narrativas se esquecem que o principal atentado terrorista da história, o 11 de Setembro, foi realizado sem o uso de uma única arma de fogo, mas poderia ter sido evitado caso o programa de agentes armados em voos nos Estados Unidos não estivesse tão enfraquecido desde os anos 1990 ou, ainda, caso os pilotos dos aviões sequestrados estivessem armados, como ocorria frequentemente até o final dos anos 1960.

O que aprendemos com isso?

Embora nem sempre correspondam à realidade dos fatos, as informações sobre crimes, violência, terrorismo e fenômenos correlatos, quando difundidas em meio à guerra entre narrativas, acrescentam tensão à dramatização do mal na vida cotidiana e levam as pessoas a tomar decisões equivocadas. Como diz uma antiga máxima da sociologia, aquilo que acreditamos que a sociedade seja nem sempre corresponde à realidade, mas certamente será real em suas consequências.

*Glauber Lemos é editor do site Proveitos Desonestos. Jornalista e sociólogo, é doutorando em sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP).

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