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Drogas

HITLER ERA UM DOIDÃO?

Por Eduardo Matos de Alencar*

1. BLITZED

O nazismo talvez seja um dos temas mais debatidos do século XX. A quantidade de publicações e obras a respeito do período em que Hitler comandou a Alemanha, entre 1934 e 1945, já excede em muito a capacidade humana de apreensão, considerando as diversas áreas do espírito humano – história, filosofia, psicologia, antropologia, arte, literatura etc. A essa altura, é praticamente impossível encontrar algo original para se dizer sobre o tema, que desperte atenção do grande público.

Se você pensa assim, espere até sair a tradução brasileira do novo livro de Norman Ohler, Blitzed: Drugs in the Third Reich. Publicado em alemão no ano passado, e já traduzido para 18 línguas, o livro conta a história real e impressionante da relação do Terceiro Reich com as drogas, incluindo cocaína, heroína, morfina e, principalmente, metanfetamina. Apesar de escrita por um autor de ficção, a obra foi elogiada por especialista como Ian Kershaw, uma das maiores autoridades da área, como “a serious piece of scholarship”.

A história de Ohler começa com um aparente paradoxo. Afinal, um dos motes do regime nazista contra a República de Weimar foi justamente o combate ao uso e à dependência química, que então grassava no país, com a indústria farmacêutica exportando opiáceos e cocaína para toda a Europa. Já em 1933, no primeiro ano do regime nazista, as drogas foram banidas e os dependentes químicos passaram a ser tratados como criminosos insanos, não raro apontados como de origem judaica, que deveriam ser executados com injeção letal ou enviados para campos de concentração.

Algumas dessas substâncias, porém, despertaram o interesse do alto oficialato nazista. Inspirado pelo sucesso do uso em larga escala da anfetamina Bezendrina pelos atletas olímpicos norte-americanos em 1936, o Dr. Fritz Hauschild, químico chefe das indústrias Temmler, desenvolveu e patenteou a primeira metanfetamina comercializada em larga escala na Alemanha, a Pervitin. A droga não demorou a se transformar numa verdadeira sensação, utilizada para aumento da confiança e melhoria da performance de secretárias, atores e até donas de casa, chegando mesmo a ser empregada na composição de produtos de confeitaria, como os chocolates Hildebrand.   

 

2. O “TECO” DA WEHRMACHT

É lógico que não demorou até que os soldados se apropriassem daquilo que Ohler descreve como “o nazismo em forma de pílula”. Depois de concluir diversos testes e de se tornar ele mesmo um viciado na substância, o Dr. Otto Hanke, diretor do Instituto de Psicologia Geral e Defensiva, uma mistura de inventor e coach de performance do exército alemão, passou a recomendar largamente o uso do Pervitin para combater a estafa dos soldados no front. A droga não somente inibia o sono, permitindo que se trabalhasse ininterruptamente 50 horas sem qualquer sentimento de cansaço, como também desativava outras inibições, tornando o campo de batalha menos aterrorizante para os soldados alemães.

Em 1940, em meio aos preparativos finais para a invasão da França, um decreto foi emitido para os médicos de companhia, orientando para que os soldados tomassem um tablete de Pervitin por dia, dois em sequência durante a noite e outros dois após duas ou três horas, se fosse necessário. Ohler é taxativo em afirmar que a Blitzkrieg não teria sido possível sem o uso da substância. Afinal, o maior obstáculo para a invasão da França pela floresta montanhosa das Ardenas era justamente a necessidade que haveria de descanso durante a noite, possibilitando aos aliados que recuassem e prendessem os invasores nas montanhas. Contudo, o decreto foi emitido e o exército alemão permaneceu acordado e em batalha durante três dias e três noites seguidas, surpreendendo as tropas inimigas.

A utilização de drogas na II Guerra não se restringiu à Batalha da França. Entre os anos 1944 e 1945, quando os alemães já se defrontavam com a impossibilidade de derrotar os aliados, a marinha alemã desenvolveu um protótipo de submarinos para um só piloto que seria capaz de chegar despercebido pelos sonares até o estuário do Rio Tâmisa. O problema é que isso só seria possível se os pilotos fossem capazes de permanecer acordados por toda a viagem, que durava vários dias, o que parecia humanamente impossível.

Na tentativa de solucionar esse problema, o Dr. Gerhard Orzechowski, chefe de farmacologia do Comando Naval do Báltico, iniciou uma pesquisa com o intuito de produzir uma droga ainda mais potente que o Pervitin. Inicialmente testada em prisioneiros dos campos de concentração, a goma de mascar de cocaína era capaz de fazer um soldado alemão ficar acordado por até sete dias seguidos, sem qualquer sinal de esgotamento. O problema é que o experimento produzia efeitos psicóticos nos marines, forçados a pilotar ininterruptamente uma caixa de metal durante vários dias, que acabavam se perdendo no meio do oceano.

 

3. HIGH HITLER

Mas talvez o relato mais chocante de Blitzed seja a descrição que faz do próprio Hitler. Durante décadas, o Führer atraiu seguidores pela dedicação ao regime nazista e pelos hábitos frugais, que lhe emprestavam uma aura de superioridade quase espiritual – não bebia, não tomava café, só se alimentava de vegetais e quase não se aproximava de mulheres, era só trabalho, disciplina e energia. A trajetória que fez com que decaísse para um completo viciado de veias estragadas, que terminaria seus dias em meio a terríveis crises de abstinência é descrita com uma riqueza de detalhes que só foi possível mediante o acesso que Ohler teve aos papéis de uma figura chave desse processo, o Dr. Theodor Morell, médico pessoal e confidente de Hitler.

Isso mesmo, Ohler apresenta material o suficiente para que se considere a relevância de uma faceta inusitada dessa personalidade e talvez de todo o regime nazista. Mais do que uma mente brilhante, um psicopata clínico, um estrategista genial, historiadores, psicólogos e filósofos teriam deixado passar um ponto cego para a compreensão de um dos homens mais importantes do século XX: Adolf Hitler era um viciado em drogas, um junkie que foi ao mesmo tempo inspiração e vítima de um dos regimes mais alucinados da História (com o perdão da maiúscula).

Durante os anos 1920, Morell ganhou fama em Berlim pelas milagrosas injeções de vitaminas que predicava aos seus pacientes. Apresentado por oficiais próximos a Hitler, que sofria de sérias dores intestinais, o doutor rapidamente se torna figura indispensável do seu círculo de relacionamento, após lhe receitar um tratamento de Mutaflor, um preparado com base em bactérias que melhora consideravelmente suas condições físicas.

Em 1941, porém, Hitler cai seriamente doente, e o Mutaflor não parece surtir qualquer efeito. Depois de inúmeros experimentos, Morell apela para uma droga denominada Eukodal, um opiáceo muito próximo da heroína, cuja principal característica é a indução de um estado de euforia no paciente. Não demorou até que o Führer passasse a fazer uso da substancia várias vezes por dia, que, combinada com as doses diárias de cocaína que ingeria diariamente como tratamento de um problema nos ouvidos provocados pela explosão de um bunker, provavelmente deve ter respondido pelo ânimo de muitos discursos públicos desse encantador das massas.

Ohler também revela que não era só o ditador alemão que se encontrava sob efeito das substancias químicas do Dr. Morell. Após os alemães colocarem Mussolini no comando da Itália fascista, o médico pessoal de Hitler foi enviado para acompanhar o Dulce em 1943. E apesar de não haver material suficiente para afirmar, com a mesma convicção que no caso de Hitler, que se tratava de um viciado, Mussolini fez uso das mesmas drogas que seu congênere germânico.

Coincidência ou não, os últimos dias do III Reich coincidiram com uma terrível crise de abstinência para seu líder máximo. Em 1945, as fábricas onde eram produzidas Pervitin e Eukodal foram destruídas por bombardeios aliados, e em fevereiro Hitler já não possuía mais nenhum estoque de drogas. Nesse ponto, Ohler parece ter encontrado uma explicação mais verossímil que o esgotamento psíquico para a compreensão do péssimo estado de saúde do Führer nos seus últimos dias, que testemunhas pessoais chegam a descrever em cenas lastimáveis de um homem curvado e babando, furando a própria pele com tesouras de ouro em terríveis crises nervosas.

Dois meses depois, Adolf Hitler se suicidava, junto com outro dos pacientes de Morell, Eva Braun. O médico pessoal de Hitler sobreviveu, não sofrendo qualquer condenação severa pelos tribunais de guerra, sendo considerado pela maioria das autoridades aliadas como um simples oportunista. Terminou seus dias num hospital em Tegernsee, no ano de 1947, meio louco e esquecido.

 

4. POLÍTICA E DROGAS

Blitzed é mais do que um relato impressionante sobre uma faceta inusitada da Alemanha nazista. Ele nos diz algo sobre drogas, política e ideologia. Faz pensar a respeito do papel de substancias artificiais na composição do Stimmung, da atmosfera ou ambiência de uma época em particular. Depois de ler o relato de Ohler, é praticamente impossível contemplar o ânimo peculiar de destruição que marcou o nazismo enquanto ideologia e regime político com os mesmos olhos.

Não somente o escândalo de doping da Rússia de Putin pode ser pensado em outros termos a partir da leitura do livro. Talvez a política de drogas da América Latina possa ser pensada numa nova chave. Não só o que está por trás da repressão, mas também das demandas crescentes por legalização generalizada e irrestrita. As perguntas e respostas guardam relação com as intenções e processos inconscientes relacionadas à disseminação cada vez maior dessas substâncias nas sociedades capitalistas modernas. Talvez se possa pensar com outros olhos no caráter político da identificação de determinados grupos ideológicos com o uso intensivo de substâncias mais ou menos alucinógenas.

Ohler, definitivamente, inaugura um campo promissor de reflexões.

 

*Eduardo Matos de Alencar é editor do site Proveitos Desonestos. Doutorando em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), possui experiência na área de gestão de políticas de segurança e desenvolvimento em organizações internacionais e governos estaduais e municipais.

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