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Bizarro

KILLER CLOWNS E A RENOVAÇÃO DO RISCO

Por Glauber Lemos*

“O homem é o único animal que ri e é rindo que ele mostra o animal que é”, escreveu certa vez um cronista do jornalismo brasileiro. Nos últimos tempos, contudo, um antigo motivo de riso tem convivido com o despertar do horror para algumas pessoas e até mesmo a preocupação para as forças de segurança de diversos países. Palhaços têm sido vistos em cidades dos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Japão, mas ao contrário de garantir o riso da criançada, eles estão aterrorizando adultos. São os Killer Clowns, novo viral da internet.

Ao que tudo indica, se espalha entre os desocupados do mundo a moda de vestir-se de palhaço para assustar transeuntes em parques, estradas e ruas desertas. Embora pareça patético, o fenômeno é revelador de aspectos interessantes da imaginação contemporânea. Chama a atenção, por exemplo, a transformação que a figura do palhaço sofreu ao longo do último século.

Se retornarmos às origens da comedia dell’arte, os palhaços são facilmente identificados como bobos, idiotas e loucos, sendo até hoje o personagem responsável por fazer a plateia rir e se entreter nos intervalos entre um número e outro do espetáculo circense. Para cumprir tal tarefa, os artistas se expõem a todo tipo de constrangimento, de tapas na cara a quedas furtivas. A dor, o sofrimento e o fracasso dos palhaços motivam o riso de seu público. É notável também o contraste entre o “fazedor de risos” e o homem deprimido, matéria de alguns dos maiores palhaços da história, como o Carlitos de Charles Chaplin. O Pierrô francês – aquele do par com a Colombina – é outro dos particulares exemplos dessa deprimente faceta dos palhaços que animam o público através da expressão de sua miséria.

O teatro de Shakespeare foi responsável por revelar ao mundo uma tendência inovadora da arte da palhaçada. O Bobo de Rei Lear contradiz o que comumente se espera do palhaço, demonstrando a faceta de verdadeiro anunciador da destruição por meio de falas ácidas, amargas e cínicas cuja sinceridade singular feria o âmago de nobres e de plateias inteiras. Em geral, nas peças de Shakespeare os palhaços são justamente aqueles a quem se permite a autenticidade do destaque das tolices de todos, inclusive de seus mestres, sem que para isso eles incorram em infidelidade. Ao atribuir tamanha importância aos idiotas, Shakespeare inverte a relevância dos palhaços, fazendo deles os verdadeiros narradores da vida.

Para além dos palhaços das perdidas ilusões, dos idiotas do circo e dos reveladores da verdade indesejada do teatro do bardo inglês, no século XX esses personagens foram obrigados a conviver com outra versão de si mesmos, que parece dar a tônica da avalanche dos Killer Clowns. No final dos anos 1970, nos Estados Unidos, tornou-se notória a história do assassino em série John Wayne Gace Jr, que se aproveitava de seu personagem, o palhaço Pogo, para molestar e assassinar garotos. O psicopata cometeu, ao todo, 29 assassinatos, e a história do palhaço assassino inspirou diversos filmes do cinema de horror, além do livro A Coisa (It), de Stephen King. Ainda nesse campo dos malvadões da palhaçada, não podemos esquecer, também, do mais famoso de todos os palhaços da cultura pop, o Joker (Coringa), antagonista do obsessivo Batman.

Desde então, a mesa parece ter virado. Os palhaços deixaram de ser presa para se tornarem predadores. E parece ser nessa onda que apostam os adeptos da prática do killer clown. Os palhaços assassinos portadores do terror são acompanhados de uma nova forma de entretenimento que aposta na violência como matéria de identificação potencializada pela viralização dos vídeos no Youtube e nas redes sociais. Não é de se estranhar que, logo após a explosão dos primeiros vídeos de perseguição com palhaços, tenham aparecido na sequência vídeos de pessoas espancando os personagens, elevando o nível da diversão dos killer clowns para kill the clowns. Hoje já é possível encontrar vídeos em que as máscaras “assustadoras” rivalizam com bastões de beisebol, motosserras e armas de fogo. Tudo pela diversão.

Se o papel do palhaço parece ter mudado no mundo contemporâneo, não podemos dizer o mesmo dos motivos do riso que animam as ondas virais. O que chama mais a atenção em toda essa história é o fato de que, a despeito das tendências politicamente corretas que invadem nossas casas diariamente, nosso entretenimento ainda é severamente pautado pela perversidade das expressões pictóricas do mal. Os palhaços assassinos estão por aí para nos lembrar que a diversão de muitos depende do sofrimento de poucos, não importando o quanto se esforcem os idiotas fiscais das mentalidades. O ânimo humanista não é capaz de conter a gargalhada mais espontânea; afinal, é rindo que  lembramos de quem somos de verdade.

 

*Glauber Lemos é editor do site Proveitos Desonestos. Jornalista e sociólogo, é doutorando em sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP).

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