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Roubo

COMO REDUZIR ROUBOS – PARTE II

Por Eduardo Matos de Alencar*

Na continuação do artigo sobre estratégias para a redução de roubos nas nossas cidades, elencamos outro conjunto de respostas possíveis para o problema. Lembrando que, na linha sugerida pelo Center for Problem-Oriented Policing, separamos as estratégias voltadas para os ofensores, as vítimas e as localidades onde esse tipo de crime ocorre, seguidas do tempo em que devem ser implementadas (se bem antes, antes, durante, depois ou bem depois do evento).

RESPOSTAS ORIENTADAS PARA AS VÍTIMAS

10) Campanhas públicas de prevenção e combate aos roubos (bem antes): Pode parecer incrível, mas muita gente não percebe os riscos que corre ao andar em determinadas áreas da cidade sem as devidas precauções. É possível desenvolver campanhas públicas para alertar a população sobre hábitos defensivos que podem reduzir os riscos de vitimização, como não deixar objetos de valor expostos no meio da rua, carregar a bolsa do lado de dentro do braço e utilizar óculos escuros.

O estímulo às ações coletivas para a redução da violência, denunciando ofensores antes e depois das ocorrências, bem como mobilizando a comunidade  para coibir a ação de ofensores contra pessoas isoladas, fazendo uso das novas tecnologias de comunicação e rede social, são exemplos de boas práticas reconhecidas internacionalmente.

11) Incremento dos mecanismos de denúncia de roubos (depois): Quanto mais rápido a vítima reporta o roubo que sofreu, mais rápida pode ser a resposta da polícia, por meio da coleta de evidências, identificação de suspeitos e outras informações importantes fornecidas pela vítima. O uso de veículos especiais para que as vítimas possam reportar o crime facilitam uma pronta resposta, já que as informações podem ser despachadas imediatamente para as patrulhas responsáveis.

No Reino Unido, a Operação Eagle Eye foi uma iniciativa famosa durante a década de 1990, que reduziu os roubos no Reino Unido utilizando, entre outros métodos, de táticas inteligentes para estimular as vítimas a denunciar os crimes e se envolver na redução dos roubos. Primeiro, o programa remetia todas as vítimas de roubo para um grupo de suporte especialmente treinado para seu atendimento. Depois, as vítimas eram avisadas prontamente do andamento das investigações, o que aumentava a confiança na polícia e gerava mais estímulos para o engajamento de outras vítimas. 

12) Reduzir atratividade dos alvos em potencial (pouco antes): É possível orientar as pessoas para que estejam alertas com produtos quentes para os ladrões, como celulares e outros objetos de valor. Por exemplo, é possível utilizar menos o celular enquanto se passeia pela rua, ou evitar os famosos fios brancos que alertam para Iphones, bem como as capas muito coloridas.

13) Recompensa para a conscientização e cuidado com a própria segurança: No Reino Unido, algumas campanhas de conscientização associam cupons de desconto de parceiros comerciais com a distribuição de cartões informativos. Também é possível pensar na mesma estratégia associada com cursos educacionais de prevenção ao roubo, de modo a fazer esse tipo de informação atrativa. 

14) Estímulo para o design inteligente de produtos quentes:  O mercado pode ser estimulado ou provocado pelo poder público para o desenho inteligente de produtos quentes no mercado criminoso, como já acontece com alguns smartphones que deixam de funcionar quando ativados pelo usuário na internet. 

15) Diminuição da circulação de dinheiro vivo nos locais mais vulneráveis: A substituição do sistema de cobrança de passagem de ônibus pelos bilhetes automatizados, assim como a utilização cada vez mais frequente dos cartões de crédito e débito são estratégias eficientes para a redução da vulnerabilidade dos consumidores nas grandes cidades. 

RESPOSTAS ORIENTADAS PARA AS LOCALIDADES

16) Remover pontos de esconderijo (bem antes e depois): O trabalho das municipalidades e dos planejadores urbanos é essencial. Caçambas de lixo, terrenos baldios sem cercamento e pontos de lixo acumulado podem servir de esconderijo para predadores urbanos. Fechar parques ou rotas de risco durante os horários de pico de assaltos também pode servir para reduzir as ocorrências. 

17) Aumentar a iluminação pública é um meio comprovado de redução dos assaltos no meio da rua (bem antes): Essa estratégia pode incluir a integração com o mercado privado para a iluminação reforçada de pontos mais vulneráveis. Já existem tecnologias que permitem o aumento da potência das lâmpadas em determinados horários de maior ocorrência de crimes. 

18) Aumentar a densidade dos pedestres nas áreas de risco (bem antes e logo depois): Roubos costumam ocorrer em áreas críticas, de alta incidência, em intervalos de tempo determinados. Nesses locais, costuma haver pedestres o suficiente para atrair criminosos, mas não o suficiente para que as pessoas se protejam umas às outras. Existem estratégias eficientes para a reorganização das rotas mais utilizadas por pedestres, como o fechamento de determinadas rotas e orientações por meio de campanhas públicas. 

19) Remover rotas de fuga (bem antes e depois):  Ladrões costumam procurar pontos de assalto próximos a rotas de fuga. Identificar essas rotas e obstaculizar sua utilização são estratégias eficazes para tornar um local menos atrativo. A instalação de cercas ao redor de estacionamentos ou o fechamento de túneis e becos em determinados horários são alguns dos exemplos possíveis. 

20) Sinalização pública de pontos de risco (bem antes e depois): Ainda que se deva tomar cuidado com a estigmatização pública de determinados locais, que podem espantar transeuntes e tornar ainda mais inseguro o espaço urbano, posters e sinais públicos de alerta em locais mais vulneráveis, como paradas de ônibus, estações de metrô, becos e caixas eletrônicos podem ser úteis para o esclarecimento da população e a adoção de hábitos defensivos. 

21) Instalação de estações para ligação de emergência (bem antes e depois): Várias universidades na Inglaterra e nos Estados Unidos trabalham no regime de estações para ligações de emergência conectadas diretamente com a polícia do campus. Na era do smartphone, pode parecer anacrônico falar desse tipo de tecnologia, a menos que se leve em conta que esse tipo de aparelho costuma ser alvo preferencial para a ação de criminosos. Até que alguém que teve seu aparelho roubado tenha acesso a um telefone, a pronta resposta já perdeu toda eficiência. 

22) Estímulo ao mercado de construção civil e imobiliário para adoção de boas práticas: Incentivos fiscais para a adoção de boas práticas, como as pregadas pela Prevenção do Crime através do Design Ambiental (CPTED, em inglês, ou Crime Prevention through Environmental Design) são essenciais para a redução da vulnerabilidade dos espaços urbanos. O desenho de parques urbanos e ruas seguras que adotem princípios para a redução da vulberabilidade, com menos pontos de esconderijo ou isolados do olhar do público, pode contribuir para aumentar a sensação de segurança e reduzir o número de crimes. A redução do IPTU para edifícios que adotem grades ao invés de muros altos pode favorecer um ambiente com mais visibilidade exterior e maior circulação de pessoas. 

 

Eduardo Matos de Alencar é editor do site Proveitos Desonestos. Doutorando em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), possui experiência na área de gestão de políticas de segurança e desenvolvimento em organizações internacionais e governos estaduais e municipais.

 

 

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