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Cinema

CARTEL LAND E A RESPOSTA AO ABSURDO

Por Eduardo Matos de Alencar*

Imagine que você vive num povoado fronteiriço. Entre seu povoado e a cidade mais próxima, pelo menos uma hora e meia de estrada pelo meio do deserto. O local, assim como outros povoados da região, é um ponto estratégico para as operações de tráfico de drogas e de armas de um grande e perigoso cartel.

Depois de um tempo, os criminosos, antes só de passagem, agora ocupam casas da vizinhança. As atividades se diversificam. Há cobranças de taxas para moradores e comerciantes. Parte das propriedades rurais é tomada dos antigos produtores. Os crimes se multiplicam. Assassinatos, decapitações, assaltos, extorsões, estupros, saques, execuções públicas.

Aqueles que procuram as autoridades governamentais, não demoram a se tornar vítimas do cartel. Governo, polícia e forças armadas estão comprometidos com o crime organizado. Um dia, toda uma família de vizinhos seus aparece decapitada, na frente da sua porta.

O que você faria?

Cartel Land conta a história de pessoas que procuram sobreviver numa era de crise de soberania do Estado moderno, na qual a fronteira entre crime organizado e poder político, governo e sociedade, legalidade e ilegalidade deixam de fazer qualquer sentido. O documentário, coletânea impressionante de cenas, imagens e depoimentos do diretor Matthew Heineman, retrata a história das autodefesas de Michoacán, grupo de civis armados criados em fevereiro de 2013 pela população local, para combater o poderio do cartel dos Cavaleiros Templários na região.

O protagonista da história, Dr. José Manuel Mireles, médico e pequeno proprietário, é considerado como um dos fundadores e durante muito tempo o principal líder do movimento, até sua prisão em 2014.

A primeira notícia de ação dos grupos se deu em 23 de fevereiro de 2013, quando os habitantes do povoado de La Ruana se armaram a despojaram a polícia municipal de duas viaturas e sete armas de fogo. Em poucos meses, as autodefesas de Michoacán contavam com três mil homens segundo alguns registros, expandindo-se de povoado a povoado numa velocidade impressionante.

Mireles aparece como um líder carismático impressionante, um homem ao que tudo indica honesto, que decidiu reagir junto com outros iguais para dar cabo de uma situação desesperada, numa guerra contra forças adversas bem mais poderosas que o bando de caipiras armados que pretendia liderar.

Acontece que esses caipiras, durante algum tempo, fizeram a diferença. As autodefesas realmente conseguiram expulsar boa parte dos Cavaleiros Templários da região, trazendo paz para muitos povoados de Michoacán. Nesse processo, entraram em confronto com os narcotraficantes, o governo e o exército. Logo de início, o documentário apresenta uma cena impressionante, do momento em que uma patrulha militar tenta desarmar um grupo de autodefesa e é rechaçada pela população organizada.

Obviamente, um processo assim não se estabelece sem contradições. Contando com uma estrutura própria, que incluía até mesmo um serviço de inteligência e informação, improvisando no que era possível e atuando sempre naquela zona cinzenta entre o ilegal e o que deve ser feito, o arbitrário e o consensual, as autodefesas de Mireles não conseguiram escapar dos dilemas inerentes ao processo de substituição das forças estatais por um aparato de segurança privado, ainda que numa situação em que não faça mais muito sentido falar em solução pela via do Estado.

O filme não mostra as cenas, mas é possível entrever as execuções, as torturas e os espancamentos cometidos contra supostos ou membros reconhecidamente pertencentes aos cartéis do narcotráfico. Na falta de procedimentos legais e aparato tecnológico e judiciário, os seres humanos improvisam, e o improviso raramente é isento de injustiças.

A tudo isso se some o progressivo descontrole de uma força armada constituída muitas vezes na base da boa vontade e sem processos criteriosos de seleção e treinamento. Rapidamente, denúncias começam a aparecer contra abusos cometidos pelas autodefesas contra os mesmos moradores que antes sofriam na mão do tráfico. Mireles fala de traição dos principais líderes, cooptados pelo governo, na forma do cadastramento e legalização das patrulhas rurais, pelos antigos cartéis, ou pelo interesse pessoal em montar uma nova estrutura criminosa a partir da situação criada pela nova configuração de forças políticas locais. Difícil dizer se há diferença entre uma coisa e outra nessa situação.

Para completar o quadro, dividimos nossa atenção com uma espécie de alter-ego norte-americano das autodefesas, o Arizona Border Recon, grupo de milicianos liderados por Tim “Nailer” Foley, que iniciou as atividades como uma patrulha de caça aos imigrantes ilegais que procuravam atravessar a fronteira, mas logo perceberam a gravidade do avanço dos cartéis mexicanos sobre o solo americano.

Não se pode dizer que o filme de Heineman procure exaltar a figura de Mireles ou o movimento das autodefesas na sua pretensa integridade original. O que vemos é uma situação desesperadora, em que homens e mulheres procuram alternativas para uma vida que não é a mais a que nos acostumamos a estudar nos livros clássicos da filosofia e das ciências sociais.

Alguns articulistas brasileiros e europeus, estupidificados pelos reflexos condicionados do progressismo, falaram que o documentário demonstra como violência só gera violência, ou como as armas não resolvem nada, ou como a solução sempre tem que ser pela soberania do monopólio estatal da força.

No México de Mireles, dos Cavaleiros Templários e das autodefesas, assim como em parte do Leste Europeu, da América Latina e da África, os problemas e as soluções são mais difíceis do que os manuais internacionais de boas práticas.    

Talvez, para muitos brasileiros, a realidade de Cartel Land pareça remota. No auge do conflito de interesses entre os três poderes da República, em que a democracia brasileira se revela um gangsterismo do voto à luz das descobertas da operação Lava Jato, alguns pontos fundamentais parecem ficar de fora do debate público. A expansão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) para o Nordeste do país, linha de um embate entre as duas facções que pode terminar com o estabelecimento de uma nova, poderosa e nunca vista organização de abrangência internacional, pode levar o povo brasileiro para um duro despertar.

Essa nova situação, estruturada em cima do acórdão que se anuncia nos bastidores para a completa desestruturação do sistema penal brasileiro e o insulamento cada vez maior da casta que se estabeleceu no comando do estamento burocrático da Nova República, parecem apontar para um futuro tenebroso.

Ao contrário do que disse certa vez um renomado intelectual brasileiro, sobre o país vir a se tornar um Canadá dos Trópicos, depois de assistir ao filme de Heineman, ficam as inevitáveis perguntas: Cartel Land pode ser aqui? Ou já é?

São questões que fazem lembrar a sabores de infância as brigas de 2016 entre coxinhas e mortadelas.

 

Eduardo Matos de Alencar é editor do site Proveitos Desonestos. Doutorando em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), possui experiência na área de gestão de políticas de segurança e desenvolvimento em organizações internacionais e governos estaduais e municipais.

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