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Terrorismo

Sair para reconstruir? O impasse da Europa frente ao terrorismo e à Nova Direita

Por Gabriel Rocha*

Nos últimos meses o terrorismo tem ocupado lugar central nos debates públicos europeus devido à onda de atentados que vêm atingindo o continente, em especial aqueles reivindicados pelo Estado Islâmico. Em mais uma tentativa de centralizar e coordenar as ações de inteligência na União Europeia, em janeiro de 2016 um novo Centro Europeu de Contra Terrorismo entrou em funcionamento em Haia, tendo como objetivo o compartilhamento mais abrangente de dados e informações recolhidos a partir dos Serviços de Inteligência da Europol.

Desde a criação do EU Stuation Centre (EU SitCen) – surgido por uma preocupação nos meses subsequentes aos ataques do 11 de setembro nos Estados Unidos – passando pelo EU IntelligenceAnalysis Centre (EU INTCEN) foram feitas algumas tentativas de criação de um órgão de compartilhamento de informações e dados sobre segurança e ameaças terroristas no âmbito da União Europeia.

O impasse gerado pela necessidade de um sistema de agências mais centralizadas de combate ao terrorismo no espaço Schengen está no fato de o combate ao terrorismo ser uma bandeira da direita. No atual quadro político europeu, a direita que mais cresce e se fortalece é justamente uma direita que almeja o fim da União Europeia. Essa direita extremamente nacionalista, encara a União Europeia como uma força estatal supra-nacional que intervém de forma exagerada nos assuntos internos das nações do velho continente.

A saída do Reino Unido da União Européia é um bom exemplo. O partido que capitalizou o processo do Brexit, o UKIP (United Kingdom Independent Party), pertence a um conjunto de partidos e movimentos de uma direita diferente daquela clássica, tradicional, liberal-conservadora, e que está assumindo o espectro mais amplo da direita em vários países europeus.

Eles são ligados ao que é conhecido por “Nova Direita Européia”, uma escola de pensamento que começa nos anos 70 na França com Alain de Benoîst, tendo hoje por nomes bastante conhecidos autores como Alexander Duguim, Tomislav Sunic, Guillaume Faye, entre outros. Em geral mais protecionista em relação ao mercado, e mais ligada ao que Ferdinand Tönnies chamou de gemeinschaft, ou “comunidade fechada” para a cultura e a vida social, a NDE, aos poucos, vai ganhando certa legitimidade, e mesmo quando não obtém sucessos eleitorais consideráveis, consegue impor, em alguma medida, sua agenda.

Um detalhe importante acerca do problema é que partidos com discurso e propostas próximas da NDE ganham mais força eleitoral, ou conseguem impor mais sua agenda, em países onde a questão migratória é mais presente. França, Áustria, e Alemanha, com o surgimento do “Alternativa para a Alemanha” e das manifestações de rua do Pegida, são bons exemplos. Em países onde a migração de massa não se tornou um dilema tão proeminente, a direita tende a se manter no seu formato mais tradicional, como em Portugal e na Espanha.

A linha neo-herderiana da crescente Nova Direita, que é contra a intervenção militar ocidental nos países mais pobres, mas a favor de maior homogeneidade interna em seus próprios países pode, evidentemente, converter a não violência a nações externas em uma violência contra minorias internas. Porém, é essa direita que parece capitalizar o eleitorado mais preocupado com a problemática da migração e do terrorismo, e mesmo a direita mais convencional, muitas vezes, tenta se apropriar de alguns pontos da agenda da NDE, como Sarkozy na França, quando tenta enfatizar a segurança pública como uma das principais preocupações de um possível futuro governo.

Vale a pena uma breve análise dos fundamentos intelectuais da NDE para mostrar como ela se choca com a ideia de uma agencia unificada de controle do terrorismo em Bruxelas. O que ficou conhecido por “Nova Direita Européia” teve inícios em 1978 com a criação do GRECE (Groupement de Recherche et d’études pour la Civilization Européenne) por Alain de Benoîst. Este autor apontava o que ele considerava o risco de uma civilização global com fundamentos nos direitos humanos, direitos esses que se tornariam um tipo de nova religião civil, ou secular. Os direitos humanos, dessa forma, poderiam ser a base de um estado totalitário pós-moderno, tornando-se uma espécie de terceiro tipo de modelo totalitário, que surge após as duas principais experiências totalitárias do século XX, o nazi-fascismo e o comunismo. A independência das nacionalidades e preservação daquilo que é visto como seus traços civilizacionais mais fundamentais e tradicionais são defendidos por essa corrente intelectual como forma de defesa contra o avanço da nova religião civil.

Outro francês que se destacou muito dentro do pensamento da NDE foi o cientista político e jornalista Guillaume Faye, autor de “Arqueofuturismo”, que prevê um fim catastrófico e apocalíptico para a modernidade. Faye, ao defender um estilo de vida mais tradicional, acredita que as crises do capitalismo somadas a um mundo de migração de massa em constante mutação levariam ao fim da civilização, em particular das civilizações européias. Faye defende não apenas uma Europa de nações independentes, mas também de regiões com alto grau de autonomia. Intranacionalmente essas regiões estariam dotadas de grande autonomia política e administrativa, uma vez que elas também possuem culturas, hábitos e costumes próprios, que as diferenciam de outras regiões dentro do mesmo país[1].

Nesta linha, Faye se aproxima muito da teoria do “eurasiananismo” do russo Alexander Duguim, que pensa uma confederação eurasiática estendendo-se de Lisboa até o Estreito de Behring, e articulada pelo eixo Paris-Berlim-Moscou[2]. Assim, como a Nova Direita de maneira mais geral, Duguim afirma que a Europa ocidental passa por um processo de “americanização”, sendo uma das causas a migração de massa. Para ele o multiculturalismo característicos das social-democracias ocidentais é na verdade “americanismo”, a criação de uma nova humanidade sem passado e sem futuro que se importa apenas com a satisfação de seus desejos imediatos a partir do consumo[3]. A igualdade entre indivíduos de várias origens raciais/culturais diferentes seria estabelecida através do igual acesso ao consumo e de programas de integração semelhantes aos norte-americanos. 

Além da americanização, uma das constantes da Nova Direita em geral, é o Islã enquanto um desses fatores que poderiam levar a uma convergência de catástrofes. A ideia de uma possível islamização da Europa é algo que esses intelectuais enxergam como uma perigosa possibilidade, tendo em vista que o número de filhos que as famílias de muçulmanos na Europa têm é maior que o dos europeus “nativos”.

Um dos mais proeminentes representantes da Nova Direita, o cientista político croata-americano Tomislav Sunic parece amalgamar todos esses pontos em seu trabalho, ainda que se concentre mais na problemática já esboçada por Alain de Benoîst acerca de um possível totalitarismo pós-moderno, ou hiper-moderno. Sunic afirma que o culto da hiper igualdade, coordenado por organizações estatais supranacionais pode levar a um sistema de hábitos e costumes, assim como estilos constitucionais e códigos criminais, semelhantes aos dos antigos países socialistas, inclusive a sua Iugoslávia titoísta natal[3].

Em sua principal obra, Homo Americanus: child of postmodern age, Sunic, tenta demonstrar que depois da Segunda guerra mundial o ocidente europeu passou por radicais transformações no que se refere à sua auto-imagem, sua cultura, seu sentimento nacional, e seu desenho constitucional. Ao adotar constituições semelhantes à americana, um país como a Alemanha Ocidental abandona o modelo constitucional tradicional onde a Magna Carta é a cristalização de um sistema ordenativo oriundo de um processo civilizacional específico, no caso o alemão. A constituição se torna o único veículo de identificação com a nação, o único patriotismo permitido é o patriotismo constitucional. Ou seja, um texto abstrato que nada tem a ver com uma kultur [4] exclusiva, mas apenas um parâmetro normativo ao qual uma sociedade em fluxo e mutação permanentes tem que se adaptar todo o tempo.

Para ordenar essas sociedades caracterizadas por enormes diversidades racial/culturais, étnicas e religiosas, os termos jurídicos, especialmente aqueles dos códigos criminais vão se tornando cada vez mais amplos, abstratos e carentes de objetividade. Um exemplo utilizado por Sunic é o artigo 133 do antigo código criminal iugoslavo, a “propaganda hostil”. Segundo Sunic tanto conspirar por vias armadas contra o regime, quanto fazer algum tipo de brincadeira zombeteira em relação ao mesmo poderia ser enquadrado no artigo 133 do código criminal iugoslavo. No ocidente pósmoderno (ou hipermoderno), o mesmo ocorreria em relação a termos jurídicos como hate speech e “crimes de ódio”, possivelmente capazes de abarcar os mais variados tipos de delitos em potencial.

Seguindo essa linha de raciocínio, Sunic afirma que os resultados no plano social são parecidos com os da antiga URSS. Para isso ele toma como exemplo a obra Homo Sovieticus, escrita em 1982 pelo dissidente soviético Alexander Zinoviev. Este autor russo afirmava que o regime soviético não era um regime autoritário como outro qualquer. Ali havia sido constituída uma civilização própria, até mesmo uma humanidade própria[5], com uma linguagem específica, que sendo ultra flexível se adapta a qualquer coisa para manter o zelo ideológico do regime. 

Um costume próprio do Homo Sovieticus se exerceria no sentido de que quando alguém criticava o regime, todas as pessoas do seu círculo de relações lhe viravam as costas, até as mais íntimas e, não raras vezes, até seus familiares de âmbito privado, como esposa e filhos. Submetido a tamanho isolamento, a pessoa voltava atrás em suas opiniões sem que os agentes da repressão não tivessem nem mesmo que ser acionados.

Para Sunic, essa prática já está implementada nos países ocidentais, não ligadas mais a um zelo ideológico da luta de classes, mas de um marxismo mais cultural, psico-pedagógico e comportamental e sustentado pela lógica do reductio ad hitlerum[6].

Desta forma, o Homo Americanus, seria o irmão mais novo do Homo Sovieticus, e ambos seriam produto de uma modalidade de pensamento universalista, que cria uma espécie de comunalismo abstrato e agigantado, onde as pessoas têm a obrigação de manifestar sentimentos de solidariedade em níveis globais[7], muitas vezes negligenciando suas relações sociais constituídas por laços fortes e relações de tipo familiar ou “racial”. Isto poderia dar espaço para o fortalecimento de identidades não ocidentais mais militantes, como o Islã salafista, por exemplo. Se a URSS era o esqueleto estatal que administrava o Homo Sovieticus, o Homo Americanus não é administrado pelo estado norte-americano[8], mas por agências transnacionais como ONU e União Européia.

Assim, o quadro político dos europeus ocidentais parece esboçar um impasse. Cada vez mais há demanda por segurança, por combate ao terrorismo e pela defesa das identidades nacionais européias frente à migração de massa, assim como controle de suas fronteiras. Entretanto, a escola de pensamento que fundamenta o crescimento da Nova Direita defende o fim da própria União Européia, pois acredita que ela se tornou o diretório de um “sovietismo cultural”, o que pode tornar a legitimação dessa comunidade de nações ainda mais ameaçada.

 

Gabriel Rocha é doutorando em ciência política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP).

 

NOTAS

[1] É o caso da Córsega e da Bretanha na França, do Algarve em Portugal e da Cornualha na Inglaterra, que são alguns dentre vários exemplos.

[2] A possibilidade dessa confederação ficar muito centralizada em torno auma dessas três cidades não é um ponto muito debatido por Duguim.

[3] Essa teoria já havia sido esboçada por Alain de Benoîst antes de Duguim,

[4] Kultur é um termo criado na Alemanha no fim dos setecentos e inícios dos oitocentos. Designa a cultura nacional de um povo espcífico. O termo Homo americanus vem da ideia de Sunic que o multiculturalismo cria, na verdade uma nova uniformização que se manifesta através do americanwayoflife e da cultura cosmopolita das grandes cidades norte-americanas. O multiculturalism não teria nada de plural. Ele apenas criaria uma nova homogeneidade que seria tranversal aos diversos grupos culturais, étnicos e religiosos. Um conjunto de hábitos e impertativos comportamentais para neutralizar o potencial conflitivo de uma sociedade multiracial.

[5] Daí, o termo Homo Sovieticus, que passa a idéia de algo próximo a uma espécie biológica própria.

[6] A redução de tudo que é considerado “politicamente incorreto” a uma remota ou imediata filiação ao nazismo de Hitler.

[7] Entre os soviéticos essa solidariedade tinha que se direcionar aos trabalhadores de todo o mundo. Para o mais moderno homo americanus, isso se daria em geral para com as minorias e povos do chamado terceiro mundo.

[8] Isto, uma vez que o homo americanus não é, necessariamente, um cidadão americano. É um indivíduo cosmopolita que pode ser encontrado em qualquer lugar do mundo.

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