neighborhood-watch-003
Comunidade

VIGILÂNCIA COMUNITÁRIA: O QUE EU E VOCÊ PODEMOS FAZER PARA REDUZIR A INSEGURANÇA.

Por Eduardo Matos de Alencar*

Imagine só, ler um ensaio, um artigo, que não conclua dizendo que a solução de X é terceiros fazerem Y.

Decidi topar essa provocação de um amigo postada nas redes sociais para discutir segurança comunitária. Isso mesmo, o assunto aqui vai ser como eu, você, nós podemos fazer no nosso bairro para aumentar a segurança de todos os residentes e tornar a vizinhança um local mais seguro.

Não se trata de estimular qualquer tipo de vigilantismo ou milícia urbana. Infelizmente, esse tipo de solução desesperada tem pouco histórico de sucesso a longo prazo. A experiência demonstra que o crime organizado tem relativa facilidade de cooptação de milícias urbanas e grupos de cidadãos armados originalmente organizados para a defesa de um território. E num país em que o Estatuto do Desarmamento ainda impõem sérios limites para aquisição de armamentos por civis, esse tipo de iniciativa flerta com a desobediência civil num nível que não recomendo para ninguém, pelo menos por enquanto.

No Brasil, pouca gente ouviu falar de Neighborhood Watch. O conceito de vigilância comunitária nasceu nos Estados Unidos durante a década de 1970, particularmente estimulado pelo caso Kitty Genovese, quando uma garota de 28 anos foi assassinada a facadas por um maníaco em Kew Gardens, uma vizinhança de Nova York.

O caso provocou grande repercussão na opinião pública pela quantidade de pessoas que ouviram os gritos de Kitty, atacada duas vezes durante a madrugada enquanto procurava escapar de seu assassino, sem que nenhum vizinho se dignasse a descer do apartamento para atender aos gritos de socorro da garota.

Os psicólogos chegaram mesmo a cunhar um termo para descrever esse tipo de atitude, bystander effect ou síndrome de Genovese, um fenômeno psicossocial que se refere a casos em que indivíduos não oferecem ajuda para uma vítima, mesmo estando em grande número, sendo a probabilidade de alguém interferir para ajudar inversamente proporcional ao número de pessoas.

Em resposta ao clamor público gerado pelo caso Genovese, em 1972, a National Sheriff”s Association (NSA) lançou o National Neigborhood Watch Program, com o objetivo de fornecer assistência para a criação de grupos de vigilância comunitária em todo o país.

Hoje, mais de 40% dos norte-americanos vivem em áreas cobertas por iniciativas desse tipo. Estudos comparativos tem chegado a conclusões positivas sobre o efeito desse tipo de intervenção, com redução média de 16% do número de crimes, mas chegando a resultados ainda mais efetivos em algumas vizinhanças.

Um programa de vigilância comunitária consiste num grupo de pessoas que vivem na mesma área que desejam fazer de sua vizinhança um local mais seguro por meio do trabalho integrado com as autoridades locais. Os grupos realizam reuniões periódicas e planejam as ações que serão realizadas em conjunto, dentro dos limites e das capacidades locais.

As atividades conduzidas por cada grupo variam de lugar para lugar. Alguns grupos se organizam para a realização de patrulhas comunitárias. Nesse caso, membros da comunidade estabelecem um canal de comunicação direto com as patrulhas policiais responsáveis, por rádio ou telefone, informando sobre a movimentação de pessoas suspeitas e estranhas à vizinhança. Outros distribuem panfletos com informações sobre prevenção ao crime ou levantam dados sobre a ocorrência de crimes na vizinhança, mapeando as ruas e os pontos mais inseguros. Quando problemas de desordem são a maior preocupação da comunidade, voluntários se organizam em grupos de limpeza e revitalização urbana, ou procuram oferecer assistência e encaminhamento a moradores de ruas e deficientes mentais.

No Brasil, movimentos análogos vem surgindo, sem muito método, mas com relativo sucesso, por meio da utilização da tecnologia das redes sociais como forma de reduzir a criminalidade. É o que caso das vizinhanças que organizam grupos de whatsapp para reduzir assaltos, monitorando as atividades de suspeitos e mesmo o trabalho de ronda da polícia militar. Quando um morador chega tarde da noite, aciona os demais pelo grupo, que vão para fora de suas casas, aumentando a vigilância exterior e dissuadindo o comportamento criminoso.

O que está por trás dessas iniciativas é o aumento daquilo que alguns cientistas sociais chamam de eficácia coletiva, que pode ser resumida na capacidade que as comunidades tem de realizar valores comuns e exercer controle sobre os indivíduos em determinado espaço, particularmente aqueles mais jovens ou estranhos ao local. Já existe toda uma tradição de pesquisas que demonstra a correlação positiva entre altos índices de eficácia coletiva e baixos índices de criminalidade.

Aqui, o que importa destacar é que não só a comunidade atua no sentido de reduzir os fatores de risco que facilitam a ocorrência de delitos, como também passa a exercer maior controle sobre o trabalho policial. Afinal, um agente da lei pode até ser imparcial em relação às partes envolvidas em litígio, mas o que ele nunca vai ser é imparcial em relação a si mesmo. Nenhum comandante de batalhão ou delegado de polícia age da mesma forma ao saber que um grupo organizado de moradores está monitorando suas atividades e fazendo o papel de cobrança necessário. Em última instância, a falta de resposta às demandas levantadas pode incidir sobre a votação de candidatos ao governo estadual e municipal naquela área, o que pode levar a uma transferência indesejada ou perda de posição a médio ou curto prazo.

Em mais de trinta anos de experiência acumulada, os Estados Unidos já possuem tecnologia e método bem desenvolvidos sobre como mobilizar uma comunidade para a organização de grupos de vigilância comunitária. O segredo fundamental em qualquer iniciativa como essa é o boca a boca, o bater de porta em porta para conhecer vizinhos e articular ações conjuntas.

O importante é saber que existe um método, que pode ser adaptado para as vizinhanças brasileiras. Caso os leitores do site demonstrem interesse no assunto, compartilhando este artigo, curtindo e comentando nossa página, os editores do Proveitos Desonestos estão dispostos a elaborar um manual de orientação sobre como organizar um grupo no seu bairro.  

 

*Eduardo Matos de Alencar é editor do site Proveitos Desonestos. Doutorando em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), possui experiência na área de gestão de políticas de segurança e desenvolvimento em organizações internacionais e governos estaduais e municipais.

Join the discussion

  1. Juliana

    Manual pls!!!!

  2. Alessandra

    Oi, tenho interesse no manual. Já temos um grupo no aplicativo what’s app, no entanto, não estamos sabendo nos organizar.

  3. Rodrigo Marcelo

    Gostaria de obter o manual. Estou começando a falar com vizinhos pensando em montar a vigilância em minha rua

  4. Vilma

    Muito bom, Eduardo! Se já tiver o manual eu tenho interesse.

    Abraços e, mais uma vez, obrigada por nos trazer essas informações.

    Vilma

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *