Arrombamento doméstico
Home Defense

HOME DEFENSE: UMA ALTERNATIVA PRIVADA DE SEGURANÇA

Por Glauber Lemos*

Se você não viu, já deve ter ouvido falar de programas como esse aqui, que mostram pessoas, famílias e comunidades inteiras trabalhando na remodelagem de suas casas para sobreviver ao “fim do mundo”. Embora nesses programas os preparadores (preppers) ou sobrevivencialistas (survivalists) sejam sarcasticamente apresentados como um grupo de malucos, de um ponto de vista prático eles têm ajudado a desenvolver um importante ramo das técnicas de segurança: o da defesa doméstica ou home defense.

O modo como a televisão e os demais meios de comunicação exibem esse tipo de material, como se os preppers se preparassem para uma hecatombe nuclear ou uma invasão alienígena, muitas vezes nos impede de perceber que determinadas situações extremas – descritas como “fim do mundo” – podem ocorrer mais facilmente do que pensamos. E é justamente no seio dessas situações que a suspensão dos códigos de conduta vigentes pode significar uma oportunidade para predadores urbanos agirem irrestritamente contra você, sua família e suas propriedades. Você duvida?

Lembremos do que ocorreu em 2005, quando da passagem do furacão Katrina pelo sul dos Estados Unidos. Esse fenômeno natural despertou uma onda de caos social principalmente na cidade de Nova Orleans, quando todos os tipos de crimes contra propriedade, homicídios e estupros se disseminaram, motivados sobretudo pela suspensão das forças de controle social formal e das instâncias psíquicas de autocontrole, pela ampla abertura de uma janela de oportunidades para predadores, além da própria divulgação amplificada dos fatos pela imprensa .

Mas isso não ocorre no Brasil. Por aqui não temos furacões, terremotos e coisas assim… É claro que, no tocante às intempéries físicas, nosso país é privilegiado, o que não quer dizer que não passemos por situações de fragilidade em nossos sistemas de controle.

Aqui vão dois exemplos: o primeiro deles ocorrido há pouco tempo, em maio de 2014, na cidade de Abreu e Lima, na Região Metropolitana do Recife, em Pernambuco. Nesse episódio uma greve da Polícia Militar arrebentou uma onda desenfreada de arrastões. A pequena cidade ganhou o noticiário nacional e muitos moradores que jamais haviam cometido crimes passaram a se aproveitar da ausência de vigilância para roubar lojas de eletrodomésticos e supermercados. A população em geral, com medo, se trancou em suas casas e rezou para que os alvos dos meliantes se restringissem ao comércio local.

O segundo caso é mais antigo, mas nos remete a problema semelhante: a morte do cartunista Glauco Villas Boas, em março de 2010. O artista e seu filho foram mortos a tiros dentro de sua própria residência. O assassino passava por um surto psicótico, invadiu a propriedade e atirou em Glauco enquanto ele tentava persuadir seu algoz a largar a arma. Raoni Villas Boas, filho de Glauco, foi morto na sequência, após ver o pai rendido pelo criminoso.

São inúmeros os exemplos possíveis de “fim do mundo” e, em geral, o poder público costuma saltar no abismo quando esses episódios ocorrem. Diante da ausência de mecanismos de segurança universalizados, a montagem estratégica de sistemas de segurança privados é a última saída para garantir alguma tranquilidade. As técnicas de home defense são, nesse sentido, fundamentais para reduzir as oportunidades existentes para predadores, principalmente no Brasil, em que a autodefesa armada é barrada pelas políticas desarmamentistas que avançam desde os anos 1990. Se não é possível contar com o poder de fogo, outras ferramentas podem ser igualmente úteis na prevenção e combate a ameaças.

O home defense parte de uma premissa bastante óbvia: segurança é, antes de mais nada, controle da situação. Controle de acesso, vigilância eletrônica, mecanismos de identificação, etc. não impedem obrigatoriamente que um invasor adentre um edifício de apartamentos, por exemplo, mas reduzem as janelas de oportunidades para que o indivíduo mal-intencionado possa agir com sucesso sem ser percebido.

Nesse sentido, não existe plano de segurança perfeito: nenhum muro é suficientemente alto, nenhuma fechadura é a prova de arrombamentos, nenhuma grade indestrutível. Mas quando sobrepostas em camadas racionalmente ordenadas, cercas elétricas, cães de guarda, sensores de presença, alarmes, janelas reforçadas, travas de segurança e todas as demais ferramentas utilizadas em um plano de defesa vão dar ensejo a um mecanismo que, ao mesmo tempo, vai reduzir a motivação de um possível ofensor, aumentar o controle e ampliar o tempo de reação dos residentes.

E aqui as variáveis motivacionais são fundamentais: senso de liberdade para agir, grau de interesse e necessidade, condições ambientais, etc. influem diretamente nos resultados de um sistema de segurança. A redução de algumas dessas variáveis pode significar o aumento na segurança de sua propriedade e de sua família.

Por fim, é importante que se tenha em mente que, uma vez instalado, a efetividade de um sistema de home defense só será verificada com a ocorrência de uma rotina disciplinada de uso. Um alarme desligado não serve de nada; um quintal iluminado durante a noite apenas facilita a entrada de invasores; um ambiente barulhento rivaliza com ameaças silenciosas. Quando realizados com o devido planejamento, esses mecanismos de defesa alternativos podem significar a garantia da sua vida e a manutenção de sua propriedade, mesmo em momentos em que a ruptura generalizada da ordem faz o mundo desmoronar ao seu redor.

Você pode encontrar mais dicas sobre home defense e autodefesa na nossa página no Facebook.

Glauber Lemos é editor do site Proveitos Desonestos. Jornalista e sociólogo, é doutorando em sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *