Agência bancária destruída após explosão
Crime Organizado

TRÊS CONSTATAÇÕES E TRÊS HIPÓTESES SOBRE OS ATAQUES A BANCOS NO BRASIL

Por Glauber Lemos*

A prisão de quadrilhas de assalto a banco sempre traz fatos que chamam a atenção. Na última terça-feira, 07 de fevereiro, por exemplo, o Núcleo de Operações Especiais da Polícia Rodoviária Federal prendeu três integrantes de uma quadrilha em um lava-jato na zona sul do Recife. E com eles, aquilo que atrai o interesse: foram encontrados dois fuzis, munição com 13 pentes carregadores, submetralhadora, pistola .40, dois carros de luxo e dinheiro. Ao que tudo indica, o grupo, que continha um fugitivo do presídio de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, havia feito assaltos a agências e caixas eletrônicos na região turística de Porto de Galinhas.

A quantidade de armas é evidência de uma primeira, e mais óbvia, constatação: a política de desarmamento em nada colabora com a redução da criminalidade armada, afinal nenhuma das armas apreendidas estava na legalidade, e sequer eram fabricadas no Brasil. Ao contrário, o que se tem observado é um aumento substancial desse armamento, com a difusão amplificada do fuzil entre assaltantes.

A segunda constatação eleva o nível da discussão: ataques a banco são atividade de extrema complexidade, que exigem estrutura (armas, coletes, carros, explosivos, ferramentas, etc.), planejamento, gestão de pessoal além de alto risco, mesmo entre adeptos de atividades criminosas. Não à toa, assaltantes a banco estão nas camadas mais elevadas da hierarquia que se costuma estabelecer nas prisões brasileiras, gozando de prestígio significativo entre lideranças de facções criminosas.

Mais do que isso: as origens de algumas das mais importantes organizações criminosas brasileiras remetem não apenas ao tráfico de drogas, mas também aos assaltos a banco. A partir dos anos 1980 essas duas atividades passaram a demandar cada vez mais ação organizada, de modo a elevar a eficiência das empreitadas. Além dos ganhos econômicos, resulta desse incremento na capacidade organizacional o surgimento de personalidades de prestígio no mundo do crime, as quais passaram a ter crescente influência sobre a massa de presos. Assim o assalto a banco foi uma das bases para a consagração de lideranças no meio prisional e mesmo para a constituição de grupos que começaram a reclamar identidade própria no mundo da criminalidade urbana.

A terceira constatação é resultado da minha curiosidade: ao me deparar com tantas notícias sobre assaltos a banco, fui investigar os dados sobre a ocorrência desse fenômeno, e após breve pesquisa o resultado foi estranho. A despeito do notável aumento da cobertura jornalística sobre essas ações, enfatizando principalmente aqueles praticados com o uso de explosivos, um levantamento da Confederação Nacional dos Trabalhadores de Segurança Privada (Contrasp)  realizado a partir de 2014 demonstra que há uma tendência decrescente no número de ocorrências contra bancos no Brasil. 

De acordo com o relatório de 2014, foram realizados ao todo 2751 ataques contra bancos naquele ano, entre assaltos, explosões e arrombamentos. Em 2015 esse número observou uma queda em torno de 9%, totalizando 2534 ataques. A entidade ainda não finalizou o levantamento para 2016, mas já há outros levantamentos cujas tendências indicam a continuidade do ritmo da queda,  que pode ser explicada por fatores como a redução da oferta de serviços bancários como caixas eletrônicos e o aumento da segurança armada em agências.

Diante de tal cenário, por que a cobertura jornalística tem feito tamanho alarde sobre a atividade dos assaltantes?

Eis a primeira hipótese: embora em sua totalidade os ataques tenham observado tendência de queda, a frequência de assaltos e explosões tem se tornado mais intensa, sobretudo a partir do segundo semestre do ano passado. Assim, a despeito de ocorrerem em menor quantidade, os crimes aconteceram em um período de tempo mais próximo uns dos outros, o que eleva a falsa sensação de crescimento dos casos e chama a atenção dos meios de comunicação.

Para a confirmação dessa hipótese seria necessária uma análise temporal desses casos, observando a distribuição das ocorrências ao longo do ano de modo a caracterizar os períodos de maior concentração. Infelizmente não tive acesso ao banco de dados que permitisse esse estudo, mas uma rápida pesquisa na internet por notícias sobre roubos e assaltos a banco dá indícios da força dessa relação, tamanha a concentração de apontamentos no segundo semestre do ano passado.

E por que a frequência dessas ações estaria aumentando? Duas outras hipóteses podem explicar esse fenômeno.

O assalto a banco não deixou de ser uma atividade prestigiosa entre organizações criminosas. Pelo contrário, agora também é fonte de obtenção de recursos essenciais para as ações de expansão do Primeiro Comando da Capital, que busca ocupar territórios e prisões nas regiões Norte e Nordeste do país, como ficou evidenciado nas recentes rebeliões ocorridas COMPAJ, no Amazonas, e em Alcaçuz, no Rio Grande do Norte. Nesse sentido, os ataques às agências bancárias podem ser uma fonte eficiente de recursos para bancar a estrutura de expansão do PCC. Essa seria a primeira hipótese para responder à pergunta.

A segunda não nega necessariamente a primeira. Em meio ao aumento dos ataques a banco, ocorreram também as mais violentas eleições municipais da história do país, com candidatos assassinados em diversas regiões, alguns desses crimes diretamente relacionados ao tráfico de drogas. Ao bancar a eleição de seus candidatos, ou evitar o sucesso de seus desafetos, PCC e Comando Vermelho estariam buscando a concretização de outra etapa de seus planos de expansão. Para tanto, os recursos a serem empregados têm origens em atividades complementares ao tráfico de drogas.

Mesmo sob forma hipotética, os dois eventos – eleições e rebeliões – coincidem com o aumento da frequência de ataques a banco e reforçam a ideia de que essas atividades estão intimamente conectadas às práticas das organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho. Essas duas hipóteses reunidas corroboram com uma tese já defendida neste site: a de que os movimentos do PCC são indicativos da possibilidade de formação de um narcoestado brasileiro.

*Glauber Lemos é editor do site Proveitos Desonestos. Jornalista e sociólogo, é doutorando em sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP).

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