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Segurança Pública

DEPOIMENTOS DOS LEITORES

Os três artigos a seguir são parte de uma série produzida por alunos do Curso de Tecnólogo em Segurança Pública e Social da Universidade Federal Fluminense – UFF.

Há algum tempo, na disciplina Estado, Direito e Cidadania, artigos do Proveitos Desonestos tem sido utilizados como instrumento para discussões acadêmicas. Agora, são os próprios leitores do blog que apresentam suas análises, em textos que são crônicas de como o tema da violência mexe com cotidianos, com a vida das pessoas, suas expectativas profissionais.

O que há de comum entre este blog e esses textos é a percepção de uma realidade, um choque, uma provocação, uma necessidade. Vive-se uma guerra não declarada, um incômodo silencioso, flagrantes despistados. Temos elefantes na nossa frente e não nos damos conta. É que polícia, segurança pública, armamento, civil, militar, defesa pessoal, legítima defesa, proteção, patrimônio, propriedade, respeito, justiça, lei, são palavras etéreas, pelo próprio modo como normalmente isso aparece, como se veicula nos noticiários, como governos tratam do problema, tudo de modo raso e espalhafatoso. Mas há pessoas interessadas e envolvidas em fazer diferente: a fim de retirar o tema da segurança pública da lama da banalidade.

 

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Uma estranha no Rio

Leticia Prado Da Silva Cavalcanti De Holanda – UFF – Pólo de Niterói

 

Um ano e onze meses, essa é a idade da minha história com o Rio de Janeiro. Tudo bem que como turista essa história tem uns 5 anos, mas morar aqui é completamente diferente. Que intenso foram esses quase 2 anos!

Não, eu não fui roubada, nem furtada, felizmente! Mas posso apostar que quando leu “intenso” foi nisso que você pensou.

Na verdade, é mais sobre alguém que já morou em várias cidades diferentes e consegue encontrar uma relação entre todas, exceto pela última, o Rio de Janeiro.

Definitivamente é a segurança a primeira coisa que vem à mente quando se trata de vir morar aqui. Começa pela escolha do bairro, passando pelo local onde você pretende trabalhar, até, no meu caso, o mais importante: a atividade que você vai exercer. Pois é, sou militar das Forças Armadas, da Aeronáutica, mais precisamente falando.

O choque começa quando você percebe que não deve usar sua farda fora do espaço físico do quartel, que não deve andar com sua identidade funcional, tampouco com o crachá, “vai que o bandido pensa que você é PM e resolve te matar…”, são coisas do tipo que se ouve pra entender que jamais, jamais você deve falar por aí onde trabalha. E aí tanta coisa passa pela sua cabeça, enquanto você morava em uma cidade onde em qualquer lugar alguém fardado é bem aceito (e as mulheres ainda passam uma mensagem boa de inclusão), para uma cidade na qual o mais importante é: esconder sua atividade.

E aí você começa a pensar, onde foi que todo esse problema começou? A policia é inimiga da população, como alguns dizem? Mas se ela é inimiga, do lado de quem ela está? E a prefeitura, qual a participação dela na crise atual? Brizola, alguém falou algo sobre ele e a criminalidade, o que foi mesmo?

Foi aliado ao meu interesse no Direito Penal e na Criminologia, que resolvi buscar a resposta para algumas de minhas perguntas e iniciar meu estudo nessa área.

“Está aí”, o Rio de Janeiro despertou minha vontade de estudar Segurança Publica! E de repente me vi na aula inaugural do curso de Segurança Publica da Universidade Federal Fluminense, eu e uma infinidade de policiais militares, alguns com cara de dúvida quando mencionei, na minha apresentação, ser bacharel em Direito, Controladora de Tráfego Aéreo e Pós-graduanda em Ordem Jurídica pelo Ministério Público. É, confesso que é um pouco confuso mesmo.

Mas onde eu pretendo chegar com tudo isso? Deve ser essa sua pergunta, afinal são muitas questões e nenhuma resposta. Bom, talvez eu tenha começado a escrever com uma ideia e no meio eu resolvi fazer um manifesto! Um manifesto de alguém que acredita que a era da informação é na verdade a era da desinformação. Estudar a segurança publica é um desafio! Os indicadores são falaciosos, o noticiário brasileiro prestando um grande desserviço à população, sobretudo quando o assunto é criminalidade, sobra espaço para o sensacionalismo e falta muita informação responsável. Um assunto tão importante, primário, deveria ser melhor abordado.

A ONG “Rio como vamos”, divulgou uma pesquisa que mostra o numero alarmante de pessoas que gostariam de ir embora do Rio de Janeiro, 56%. Atribuo a estas pessoas uma insatisfação tão grande, que não há mais esperanças na mudança, como um relacionamento amoroso fadado ao fim. Talvez eu tenha uma visão romântica do mundo, como diz minha mãe, porque eu acredito piamente que tem de haver uma solução. É um clichê, mas nós devemos ser a mudança que queremos ver. Precisamos, como seres pensantes, perquirir mais, cobrar os nossos governantes de forma inteligente e imperativa, estudar de forma ampla o contexto no qual estamos inseridos e entender, que este barco que está afundando “também é nosso”.

 

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O Emprego da Moça

Helena Rodrigues De Barros – UFF – Pólo de São Gonçalo

E lá estava ela, acabara de passar no concurso. Seu primeiro emprego. Irá receber seu primeiro salário. A mãe dela brincou dizendo como diz o Coronel Fábio no filme Tropa de Elite:

-“Que satisfação aspira!”.

A menina riu e disse:

– Mãe, com o meu primeiro salário lhe pagarei o que devo.

E assim ela começou sua carreira na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. No seu primeiro serviço, se viu refletindo: segurança pública é um direito do cidadão, a comunidade não é tão perigosa quanto parece, os serviços são tranquilos. Poxa, a Polícia é tão criticada, porque será que é assim?

O primeiro ano de serviço foi razoável. Fez amizades, conheceu determinadas “políticas” da comunidade, conheceu moradores, ficou sabendo quem eram os que não agiam de acordo com a lei, fez amizades, desfez amizades. Até que um belo dia tudo mudou. Inclusive o comando. Ao se pegar pensando novamente, ela percebe que a segurança pública é um direito de alguns, que a comunidade não é o que ela pensava e os serviços estavam se tornando cada vez mais estressantes. Quando a turbulência mental que ela passava atingiu o nível mais intenso de sua vida, outra mudança ocorreu. Mas dessa vez ela quem foi embora daquela comunidade.

Vida nova, departamento novo, tudo novo. Não mais em comunidade, a moça começa a aprender um serviço novo, o administrativo. Nossa! Quanto papel. Mas aquela quantidade de papel a fazia trabalhar bem e se sentir bem. Nada melhor do que prestar um bom serviço pra população. Quando ela se pega pensando mais uma vez, nota que a polícia é feita de momentos, feita de locais e que todo policial recebe ordens e que devem ser cumpridas na marca. A polícia é uma instituição pública que tem como função atender a sociedade, pensa ela. E a cada dia que passa a mais a polícia tem menos estrutura pra atender a sociedade que é o cliente mais valioso. Ela começa a perceber então que sem a polícia, o Estado estaria um caos. Que a polícia falha, tem seus inúmeros problemas de logística, tem seus policiais corruptos, tem seus policiais honestos, tem seus policiais que já deram a vida e os policiais que ainda dão a vida pela população. Mas cumpre o seu dever. A ingratidão do cliente machuca cada vez mais o coração dessa moça. A inspiração que ela tinha quando gritou ao concluir o curso: “PELO SACRIFÍCIO DA PRÓPRIA VIDA”, deixou sua coragem de lado. Tornou-se não mais o sonhado trabalho, mas sim sobrevivência. Apesar do negativismo ela ergue a cabeça todos os dias, pois ela sabe que existe uma minoria que valoriza o trabalho dela. A deixa contente e a elogia.

A moça, quando se pega pensando ainda sobre a vida dela, ela procura os momentos mais felizes, pensa que o agente público faz na medida do possível o seu trabalho. Trata bem quem a destrata e quem a trata bem. Pois nada melhor do que chegar em casa com a consciência limpa de serviço bem prestado ao cliente. A moça procura refletir que não é melhor do que ninguém e que precisa acima de tudo cumprir a lei e fazer a lei ser cumprida. A moça pensa que agente da segurança pública é um trabalho árduo, que a priva de fins de semana de lazer com sua família, que a priva de uma boa noite de sono, porém é um trabalho honesto e a moça vai continuar a fazê-lo apesar das circunstâncias, até porque, a moça ainda tem de pagar o que deve a sua mãe desde o início. 

 

 

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A Divina Comedia do Agente de Segurança Publica: neutralidade, abandono e reconhecimento.

Tony Sarmento Da Silva – UFF – Pólo de Nova Friburgo

No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise.” Dante Alighieri, A Divina Comédia.

Uma grande questão intriga a sociedade: o incremento da criminalidade e o aspecto das políticas urbanas e sociais no Brasil, incluindo nesse ponto o trabalho do Agente de Segurança Pública, profissional que possui a obrigatoriedade legal de manter a ordem e a segurança, direcionando-se à formação para o perfeito equilíbrio da aplicação das legislações brasileiras.

Os índices de criminalidade são fatores que sempre estiveram presentes nas fases do cotidiano do cidadão, independentemente da etnia e poder sócio econômico. Porém, com o aumento populacional e o distúrbio no poder aquisitivo, esse desenvolvimento insere novos problemas: a criação de comunidades e a baixa renda que tanto sugestiona a criminalidade quanto a oculta, através de benefícios e subornos. O panorama atual impõe medo e cria grande tensão, pois criminalidade e violência invadem impiedosamente as camadas sociais.

É um conjunto de consequências que se refletem no trabalho dos agentes e no que pensam os cidadãos. Hoje, a grande maioria enxerga esses agentes como marginais. Tornam-se neutros diante do sofrimento, falta de preparo e de condições de trabalho dos mesmos. Muitos são abandonados, expostos a perigos, quando a própria comunidade que devem proteger, lhes viram as costas pela influência dos traficantes ou pela crença de que aqueles são os inimigos. A sociedade não consegue mais distinguir quem são os verdadeiros inimigos e cada vez mais, se voltam contra os agentes de segurança. Mesmo que em péssimas condições, sem receber seus salários, eles se arriscam diuturnamente para manter a paz.

É certo que não há regra e entre eles há os que são corruptos e cruéis, assim como há na comunidade aqueles que não os desprezam ou se mantém neutros. Mas até quando os Agentes serão submetidos a humilhações e retaliações de quem jurou proteger com o sacrifício de suas vidas? Quantas vidas são perdidas diariamente e não são sentidas? Não são noticiadas, porque o que traz ibope é mostrar o lado “bandido” desses agentes, culpados por tiroteios, invasões e mortes que a perícia pode negar mais tarde. 

Será necessário que percam o desejo de proteger? Que será feito quando ninguém mais quiser servir, quando não restar alguém que queira o fardo de salvar, proteger e cuidar?

Para os agentes se torna cada vez mais nítido o inferno descrito na Divina Comedia porque,  a partir do momento que fazem seu trabalho perdem toda e qualquer esperança de clemência, seja da mídia, seja da população. Recebem como castigo a indiferença, o desrespeito e a contrariedade de muitos. 

As causas são muitas e as reações também. Sejam omissões de socorro, trânsito indevido por comunidades invadidas para ludibriar, seja na condução de manifestações violentas e depredatórias, vemos os agentes de segurança pública passar por situações controversas e conflitantes.

“A Divina Comedia” da sociedade hipócrita que exige segurança, mas não apoia aqueles que a oferecem, mantendo-se neutros. Vivenciam o descaso. Aos honrados valentes que buscam proteger, torna-se difícil não enxergar à entrada da carreira a célebre frase da entrada do Inferno:Vós que entrais, abandonai toda a esperança.”Isso terá fim quando a sociedade, autoridades e cidadãos entenderem os esforços dos que labutam, enxergarem os erros dos que fraudam e tomarem atitudes, mesmo que drásticas, para um desfecho efetivo: condições salutares e dignas, salários compatíveis com as atividades laborais e reconhecimento, que trará orgulho e motivação para que possam sentir, assim como Dante quando chega ao céu, “o amor que move o Sol e as outras estrelas” pela profissão que abraçaram e a exerçam com ainda mais dedicação e afinco.

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  1. Luiz Ramiro

    Maravilha!!! Parabéns!

  2. Letícia Holanda

    Muito obrigada ao professor Luiz Ramiro por nos apresentar o Proveitos Desonestos, que com certeza figura como protagonista na busca por informação com responsabilidade.
    Meu muito obrigada também aos escritores do site pela oportunidade que nos deram! Sinto-me lisonjeada pelo meu texto ter sido escolhido!

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