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Comunidade

CONHEÇA SEUS VIZINHOS: O PRIMEIRO PASSO PARA UMA VIZINHANÇA MAIS SEGURA

Por Eduardo Matos de Alencar*

Faz algum tempo que publiquei o primeiro artigo sobre o tema de vigilância comunitária no Proveitos Desonestos. A ideia era trazer para o debate em língua portuguesa um tema caro ao mundo anglo-saxão: o envolvimento direto das pessoas na redução da violência.

Lançamos a ideia e esperamos algum tempo para mensurar a reação dos leitores. O artigo ainda hoje é um dos trending topics do site. E sempre aparecem pessoas cobrando o manual que prometemos elaborar sobre o tema.  

Já que assumimos o compromisso, vamos levar o projeto para frente, numa série de artigos que depois devem ser resumidos num manual prático. Antes, algumas ressalvas para um melhor esclarecimento.

As experiências brasileiras de vigilância comunitária, salvo raras exceções, são pouco sistematizadas ou francamente desonestas. Não raro, grupos armados se estruturam para oferecer serviços de proteção privada, as chamadas turmas do apito, que atuam com patrulhamento a pé ou motorizado, com o objetivo de coibir o crime em determinadas vizinhanças.

O problema é que esses grupos nem sempre oferecem resultados positivos. Quando não contam com profissionais armados, a presença dos vigilantes logo se torna parte da paisagem, inclusive para predadores urbanos que atuam no local. Afinal, quem tem medo de um homem com apito e cassetete na mão?

Também pode acontecer que esse tipo de grupo se torne um novo calo para a vida dos moradores, que terminam se vendo como vítimas de extorsão na forma de venda de proteção privada. Quem não contribui com o vigilante, termina tendo a casa invadida ou o carro roubado, e ninguém sabe mais direito até onde o pedido de contribuição não disfarça uma ameaça velada.

Da mesma forma, há casos em que o vigilantismo esconde a atuação de grupos de extermínio. Num país em que a maioria das pessoas não pode andar armada sem infringir a lei, o sujeito que se dispõe a fazê-lo e ainda oferece serviços informais de proteção privada tem grandes chances de se aventurar em atividades mais lucrativas no mundo do crime.

Esse tipo de situação costuma gerar desconfiança quando se fala em vigilância comunitária no Brasil. Como se trata de uma outra ideia e uma outra metodologia, talvez seja de chamar a coisa por outro nome. Nesse sentido, Vizinhança Segura parece uma tradução mais adequada para o tipo de intervenção que estamos propondo. 

Aqui, importa também diferenciar essa ideia dos chamados programas de policiamento comunitário. Estas iniciativas, prevendo estruturas de conselhos e aproximação das polícias com os moradores, apesar de meritórias na sua essência, geralmente trazem consigo o ranço de programa governamental, com pouca capilaridade para as pessoas comuns.

Além disso, a emulação do formato de mobilização popular de sistemas de participação como os do SUS contribui para que esses espaços sejam ocupados por pessoas com mais interesses políticos que comunitários.

A razão de fazer essa ressalva é que um projeto de Vizinhança Segura começa e funciona por meio da relação próxima entre vizinhos. Esse é um dos eixos fundamentais desse tipo de intervenção, que funciona mediante interação entre vizinhos e entre estes e os serviços policiais que atuam na área.

Isso porque as pessoas da vizinhança conhecem o território onde vivem mais do que qualquer outra. Uma patrulha policial que passe por uma van estacionada perto de uma praça com crianças não vai saber se o veículo é suspeito ou não, mas a vizinhança vai. Ela sabe se ele pertence a algum comerciante do bairro, se é da frota de algum serviço de transporte escolar que atua na área ou se nunca foi vista por lá.

Assim que algum morador se depara com uma situação como essa, não é raro que desperte apreensão ou preocupação. Mas o que pode fazer com esse tipo de informação? Talvez, se decidir telefonar para o Disk-Denúncia, pode ser que o serviço seja eficiente para repassar a informação para o batalhão de polícia responsável pela área. A pessoa que atender a ligação, por sua vez, pode ser que também seja atenciosa o suficiente para repassar o problema por rádio, para a viatura mais próxima, cujo capitão também pode ser um policial preocupado, que se dirija até o local para averiguar a situação, abordando o dono da van, checando documentação e demonstrando para ele e outros estranhos que a vizinhança é devidamente vigiada.   

Você consegue perceber a quantidade de gargalos no fluxo de informação para que o resultado não seja o esperado? A informação pode travar na má vontade ou na ineficiência da atendente do serviço, do responsável no batalhão ou do policial na viatura. E o morador preocupado, que não vê ninguém chegar, termina desiludido e prefere direcionar sua atenção para outro problema. Enquanto isso, pode ser que uma criança desapareça do parque, sem nenhuma explicação. E ninguém além de seus pais sequer fique sabendo do crime ou como ele poderia ter sido evitado.   

Agora imagine que esse morador saiba o nome e tenha o contato direto, pelo celular ou whatsapp, do policial responsável pela viatura. Já se sabe que um pedido de ajuda direcionado para uma pessoa particular surte mais efeito do que para uma instituição ou multidão anônima. Qualquer servidor público que se sinta pessoalmente cobrado por um cidadão que ele conheça tem maior inclinação de atender ao pedido do que dar resposta a uma demanda numa planilha.

Caso você não tenha ficado convencido da importância desse tipo de aproximação, imagine então que o morador acione um grupo de moradores do grupo de Vizinhança Segura pelo whatsapp, procurando mais informações a respeito da van e colocando sua preocupação em torno do problema.

Pode ser que o grupo entre num consenso sobre a importância de uma ação policial, e que todas as pessoas que tenham o contato do policial responsável pela viatura, ou do comandante do batalhão da área, decidam fazer o chamado ao mesmo tempo. O sujeito receberá o quê? 20, 30 ligações sobre o mesmo problema em pouco mais de cinco minutos?

Ainda que o policial seja insensível às preocupações dos moradores, não o é ao seu próprio posto e posição dentro da corporação. Afinal, um grupo de moradores que se mobiliza tão rápido para fazer pressão pode fazê-lo para reclamar ao responsável pela secretaria de segurança, ou a deputados e vereadores, sobre a negligencia ou incapacidade do policial. Estes, por sua vez, sabem que dependem do voto direto da população, e não vão hesitar em enquadrar o policial em questão ou substitui-lo por outro que não arrume tantas dores de cabeça.     

Esse tipo de cenário, então, só é possível quando já existe relação de confiança estabelecida entre vizinhos e moradores do mesmo bairro. Não é raro que as coisas não sejam assim hoje em dia, quando as relações pessoais acabam se consolidando em outros espaços, como faculdade ou trabalho, enquanto as pessoas mais próximas de nós permanecem desconhecidas. Então, o primeiro passo para um projeto desses funcionar é estabelecer relações mais próximas com a vizinhança.

Como isso é possível? Da mesma maneira que um ser humano sempre fez para se aproximar de outro: conversando. Procure saber o nome das pessoas que moram na sua rua, estabeleça algum tipo de conversa trivial com elas. Bom dia, boa tarde e boa noite seguido pelo nome da pessoa faz uma diferença enorme.

Coloque isso como missão para os próximos meses. Inicie pela sua rua mesmo. As casas ao lado da sua, os porteiros dos prédios próximos, os comerciantes. Não precisa de uma boa desculpa para se aproximar de alguém além de dizer que somos vizinhos, então gostaria de saber seu nome, para o caso de haver algum problema precisar de ajuda etc. Conte quantas casas ou prédios há na sua rua, veja quantas pessoas você sabe quem são e quantas sabem quem são você. Coloque uma meta simples, de se apresentar a uma ou duas delas por semana. Caso não seja bom de memória, anote essas informações num caderninho.

Para aqueles que já tem alguma relação na rua onde vivem, a recomendação é a mesma para as ruas contíguas. Projetos de Vizinhança Segura funcionam por blocos de casas, não por ruas separadas. É preciso ter algum contato nas ruas ao redor para dar início a qualquer tipo de mobilização. Qualquer pessoa vai estranhar menos uma ideia como essa se ela sabe quem você é e onde você mora. Quanto mais gente se conhece e se sabe onde vive, mais fácil é de qualquer iniciativa comunitária dar certo.

Nesse estágio, já é possível garantir uma coisa. A sua vida e a dessas pessoas já está mais segura do que antes pelo simples fato de você saber quem elas são e elas saberem quem é você. Poucas pessoas ouvem o próprio nome num pedido de socorro e ignoram impunemente, ainda mais se reconhecerem a voz da vítima. A resposta de multidões anônimas sempre tende a ser impessoal. Agora o mesmo não pode se dizer quando o pedido de ajuda se dirige a alguém específico.

O filósofo Rosenstock-Huessy dizia que a nossa alma é o nome pelo qual respondemos. Conheça as pessoas pelo nome para que possa contar com elas, quando for preciso. E nunca se recuse a atender a um chamado.

Nos próximos artigos sobre o tema, prometo falar um pouco das etapas seguintes para a construção de um projeto sustentável de Vizinhança Segura. Não deixe de compartilhar nossos artigos nas redes sociais e com as pessoas próximas. Quanto mais gente tiver tido contato com essa ideia, mais chance é que possamos fazer dar certo.

*Eduardo Matos de Alencar é editor do site Proveitos Desonestos. Doutorando em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), possui experiência na área de gestão de políticas de segurança e desenvolvimento em organizações internacionais e governos estaduais e municipais.

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