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O SMARTPHONE DESTRUIU UMA GERAÇÃO?

Traduzido do artigo original de Jean M. Twenge, publicado em The Atlantic

 

Um dia, no verão passado, perto do entardecer, liguei para Athena, uma garota de treze anos que vive em Houston, Texas. Ela atendeu o iPhone que tem desde os 11 anos de idade, como se tivesse acabado de acordar. Conversamos sobre suas músicas favoritas e programas de televisão; perguntei o que gostava de fazer com seus amigos. “Nós vamos para o shopping”, disse. “Os seus pais deixam vocês a sós?”, perguntei, relembrando meus próprios tempos de escola secundária, nos anos 1980, quando adorava as poucas horas livres de meus pais no shopping com os amigos. “Não, eu vou com minha família”, ela replicou. “Nós vamos com minha mãe e meus irmãos, e andamos um pouco pelo lugar. Eu sempre tenho que dizer para minha mãe onde estou indo. Preciso fazer um check a cada uma hora ou de 30 em 30 minutos.

Essas idas para o shopping não eram frequentes – mais ou menos uma vez por mês. Ocasionalmente, Athena e seus amigos passavam o tempo juntos em seus iPhones, fisicamente separados. Diferente dos adolescentes da minha geração, que podiam passar uma tarde inteira ocupando a linha telefônica da casa com fofocas, eles falam no Snapchat, um aplicativo de smartphone que permite aos usuários enviar figuras e vídeos que rapidamente desaparecem da rede. Eles se asseguram de manter vivo um fluxo constante e diário de mensagens conhecido como Snapstreak. Às vezes, fazem um screenshot de fotos particularmente ridículas de seus amigos. “É uma boa forma de fazer chantagem”, diz Athena. Ela me disse que passa a maior parte do verão andando sozinha pelo quarto com seu telefone. “Esse é o jeito da minha geração”, afirma. “Não tivemos a chance de conhecer alguma vida sem iPads ou iPhones. Acho que gostamos mais de nossos aparelhos do que de pessoas de verdade”. 

Nos últimos 25 anos, tenho pesquisado diferenças entre gerações – pelo menos desde os 22 anos de idade, quando era estudante do curso de doutorado em psicologia. Tipicamente, a característica que define uma geração aparece de maneira gradual, ao longo de um continuum. Crenças e comportamentos que surgem em determinado momento tendem a se perpetuar por longos períodos de tempo. Os chamados Millenials, por exemplo, são uma geração bastante individualista, mas o individualismo só tem crescido desde o advento dos Baby Boomers, que tiveram seus momentos de glória. Cresci acostumada com gráficos de moda que pareciam modestos vales e colinas. Até que comecei a estudar a geração de Athena.

Pelos idos de 2012, comecei a reparar em mudanças abruptas no comportamento e nos estados emocionais dos adolescentes. As gentis variações nas linhas dos gráficos se transformaram em montanhas imensas e abismos assustadores, e muitas das características da geração Millenial começaram a desaparecer. Em todas as minhas análises de dados geracionais, algunas dos quais remontando aos anos 1930, nunca tinha visto nada assim.

De início, pensei que poderia se tratar de eventos incomuns, mas os padrões persistiram durante muitos anos, em uma série de surveys nacionais. As mudanças não eram só de grau, mas qualitativas. A grande diferença entre os Millenial e os seus predecessores era no jeito que eles viam o mundo; os adolescentes de hoje se diferenciam dos Millenials não só na sua forma de ver o mundo, mas como passam o seu tempo. As experiências que vivenciam todos os dias são radicalmente diferentes daquelas de uma geração que atingiu a mesma idade somente alguns anos antes.

O que aconteceu em 2012 para causar uma mudança tão dramática no comportamento? Foi depois da Grande Recessão, que durou de 2007 a 2009, que teve um forte impacto na procura dos Millenial em achar um lugar para si numa economia destruída. Mas foi também exatamente no momento em que a proporção de americanos que possuíam um iPhone ultrapassou a casa dos 50%.

Quanto mais eu me debruçava sobre os surveys anuais a respeito das atitudes e comportamentos de adolescentes, e quanto mais falava com jovens como Athena, mais claro ficava que se tratava de uma geração moldada pelo smartphone e pelo surgimento concomitante das redes sociais. Eu os chamo de iGen. Nascidos entre 1995 e 2012, membros dessa geração estão crescendo com smartphones, possuem uma conta no Instagram antes de iniciar o Ensino Médio, e não se lembram de um tempo em que a internet não existia. Os Millenials cresceram com a internet também, mas não se tratava de algo sempre presente nas suas vidas, facilmente acessível, noite e dia. Os membros mais velhos da geração iGen estavam no meio da adolescência quando o iPhone foi introduzido em 2007, e já cursavam o Ensino Médio quando o iPad entrou e cena, em 2010. Um survey com mais de 5000 adolescentes americanos descobriu que três em cada quatro deles possuíam um iPhone.  

Diversas críticas a respeito dos efeitos deletérios da “era das telas” já se seguiram ao advento do smartphone e do seu primo tablet. Porém, o impacto desses dispositivos ainda não foi corretamente apreciado, na medida em que ultrapassa em muito os problemas relacionados a déficits de atenção. A chegada do smartphone transformou radicalmente cada aspecto da vida dos adolescentes, da natureza das suas interações a sua saúde mental. Essas mudanças afetaram jovens em todos os cantos do país e em todos os tipos de lares. As novas características se manifestam entre adolescentes ricos e pobres, de diferentes etnias, em cidades, subúrbios e pequenas vilas. Onde existem torres de celulares, haverá adolescentes vivendo suas vidas pelos smartphones.  

Para aqueles entre nós que se lembram de uma adolescência mais analógica, isso pode ser estranho ou problemático O objetivo do estudo geracional, entretanto, não é sucumbir à nostalgia de como as coisas costumavam ser, mas entender como elas são agora. Algumas mudanças geracionais são positivas, outras são negativas, e muitas são ambas as coisas ao mesmo tempo. Mais confortáveis nos seus quartos de dormir do que num carro ou numa festa, os adolescentes de hoje estão fisicamente mais seguros do que os adolescentes costumavam estar. Estão menos sujeitos a se envolver num acidente de carro ou adquirir doenças provocadas pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas do que seus predecessores.

Psicologicamente, entretanto, são jovens mais vulneráveis do que os Millenials: estatísticas de depressão e suicídio entre adolescentes crescem dia após dia, desde 2011. Não é exagero descrever os iGen como estando no limite da pior crise de saúde mental em décadas, um processo de deterioração que remete ao smartphone.

Ainda que se trate de um evento sísmico como uma guerra, um salto tecnológico ou um show monumental num pátio cheio de lama, nenhum fator isolado desempenha um papel fundamental para a formação de toda uma geração. Organizações familiares adquirem novos formatos e importância, assim como currículos escolares e a cultura geral, influenciando jovens de incontáveis maneiras. Porém, o advento geminado do smartphone e das redes sociais desencadeou um terremoto de magnitude desconhecida nos anos anteriores. Existem fortes evidencias que os dispositivos que colocamos nas mãos de pessoas jovens tem exercido efeitos devastadadores nas suas próprias vidas, tornando-os profundamente infelizes. 

No início dos anos 1970, o fotógrafo Bill Yates tirou uma série de retratos na pista de patinação Sweetheart em Tampa, Flórida. Em um deles, uma adolescente sem camisa aparece com uma garrafa de licor de pimenta amarrada à cintura. Na outra, um garoto que não parece ter mais do que 12 anos posa com um cigarro entre os lábios. A pista parece um ambiente onde os garotos podem se afastar dos pais e viver num mundo só seu, onde podem beber, fumar e passear na capota de caminhonetes. Numa imagem preto e branca forte, o adolescente encara de maneira desafiadora as lentes de Yates, com aquela confiança nascida da capacidade de fazer as próprias escolhas, ainda que seus pais possam não concordar com elas.

Quinze anos depois, durante minha adolescência como membro da Geração X, fumar já não era algo tão romântico, mas a independência definitivamente importava, e muito. Eu e meus amigos procuramos tirar licenças de motorista o mais rápido possível, contando os dias até que, aos 16 anos, pudéssemos desfrutar de uma nova forma de liberdade que nos permitia escapar ao confinamento das vizinhanças suburbanas onde vivíamos. Quando nossos pais nos perguntávamos quando estaríamos em casa, replicávamos com outra pergunta: – quando é que eu preciso estar?

Mas o fascínio da independência, tão forte para as gerações passadas, não cala da mesma forma no coração dos jovens de hoje em dia, que não parecem muito interessados em sair de casa sem a presença dos pais. A mudança é assustadora: jovens do último ano do ensino secundário em 2015 estão saindo com menos frequência do que jovens quatro anos mais novos faziam em 2009.

A disposição para o encontro íntimo também parece cada vez menor. O estágio inicial do namoro, que a Geração X chamava de “gostar” (como quando dizíamos “Ooh, ele gosta de você!), os garotos de agora chamam de “teclar” (talking) – uma escolha irônica para uma geração que prefere digitar numa tela a uma conversa presencial. Depois que dois adolescentes teclam por um tempo, podem começar a sair. Mas somente 56% dos veteranos no ensino secundário saíam em encontros desse tipo em 2015, um percentual que chegava na casa dos 85% para os Babyboomers e Geração X. 

A queda nesse tipo de comportamento se reflete na diminuição da atividade sexual. A queda é a maior entre os secundaristas desde 1991, quando o percentual de jovens sexualmente ativo chegava a 40%. Poucos adolescentes fazendo sexo tem contribuído para o que tem sido apontado como uma mudança positiva nos últimos anos: o declínio da gravidez na adolescência já passa dos 67% em 2017, quando comparado com o pico dos anos 1991.

Até mesmo dirigir, um símbolo de liberdade adolescente inscrito na cultura popular americana, presente em clássicos do cinema como Juventude Transviada e Curtindo a Vida Adoidado, perderam seu apelo para os adolescentes contemporâneos. Quase todos os estudantes secundários da geração Babyboomer possuíam carteira de motorista antes da formatura; hoje, pouco mais de um a cada quatro jovens hoje terminam o secundário com autorização para dirigir. Para muitos, a mãe e o pai são motoristas tão prestativos que não há necessidade urgente de dirigir. Uma estudante de 21 anos de San Diego me contou que os pais a levavam de carro para qualquer lugar e nunca reclamavam, de modo que sempre andava de carona. “Eu fiquei sem licença para dirigir até o dia que minha mae disse que era preciso fazê-lo, porque ela não poderia ficar me levando para a escola sempre”, disse ela, explicando que isso só aconteceu seis meses depois que completara 18 anos. Em inúmeras conversações, jovens me relataram que a licença para motorista era algo praticamente imposto por seus pais em determinado momento, o que era impensável para as gerações anteriores.

Independência nunca vem de graça. É preciso ter dinheiro no bolso para pagar a gasolina ou aquela garrafa de cerveja. Nas gerações anteriores, uma grande quantidade de jovens trabalhava para financiar a própria liberdade, ou era forçada a tanto pelos próprios pais para aprender o valor do dinheiro. Mas os adolescentes da geração iGen não estão trabalhando, ou fazendo seu próprio dinheiro. No final dos anos 1970, 77% dos estudantes no final do ensino secundário exerciam algum tipo de trabalho remunerado durante o período de estudos; em meados dos anos 2010, só 55% possuíam algum tipo de renda. O número de estudantes que trabalha por dinheiro tem reduzido pela metade nos últimos anos, um declínio que se acelerou durante a última grande Grande Recessão, mas a procura de emprego pelos jovens não tem aumentado, em que pese o crescimento da oferta disponível.

É claro que escapar das responsabilidades da vida adulta não é uma inovação dos iGen. Antes deles, a Geração X, nos anos 1990, foi a primeira a adiar a assunção de responsabilidades da maturidade. Essas pessoas tendiam a dirigir, beber álcool, ter relações sexuais e engravidar mais jovens do que seus precedessores, os Babyboomers, mas, conforme deixavam para trás os anos de juventude, terminavam se casando e iniciando carreiras profissionais, assim como seus pais, ainda que um pouco mais tarde.

Sem dúvida, foi uma geração que prolongou a própria adolescência para além dos limites até então conhecidos. Iniciando com os Millenials e continuando com os iGen, esse período da vida humana tem experimentado uma nova contração, mas porque seu início está sendo atrasado. Uma série de comportamentos como namoro, consumo de bebidas alcoolicas e fuga da supervisão parental tem iniciado bem mais tarde. Jovens de 18 anos de hoje se comportam como os de 15 da geração anterior, e os de 15 se parecem com os de 13 etc., de modo que a infância parece se prolongar até o ensino secundário.

Por que os jovens de hoje esperam tanto para assumir as responsabilidades e também os prazeres da vida adulta? Mudanças na economia e na organização das famílias certamente desempenharam algum papel nesse sentido. Em uma economia da informação, que oferece recompensas financeiras para o ensino superior mais do que em qualquer outro período da história, os pais parecem mais inclinados para encorajar os próprios filhos a ficar em casa para estudar, em vez de pegar um emprego de meio expediente. Os jovens, por sua vez, parecem satisfeitos com esse arranjo, mas não porque são estudiosos, e sim porque suas vidas são vividas pelo smartphone: eles não precisam deixar a casa para passar tempo com os próprios amigos.

O estranho é que os jovens dessa geração também possuem menos tarefas de casa do que os da geração passada, dos anos 1990. Considerando que o tempo que os estudantes veteranos do ensino secundário dispendem em atividades como clubes de estudo, esportes e exercício mudou pouco nos últimos anos, junto com a diminuição do trabalho de tempo parcial, é possível afirmar que essa geração possui mais tempo livre do que qualquer outra em décadas.

Então o que eles estão fazendo durante todo esse tempo? Estão no telefone, nos seus quartos, sozinhos e despreocupados.

Uma das ironias da vida dos jovens de hoje é que, apesar de passar mais tempo debaixo do mesmo teto que seus pais, não se pode dizer que tenham mais intimidade com eles do que as gerações passadas tiveram. “Eu vejo meus amigos com suas famílias – eles não falam com ninguém”, disse Athena para mim. “Eles só dizem ‘ok, ok, tanto faz’, enquanto os pais lhe ordenam que façam algo, sem nem ao menos largar o telefone. Eles simplesmente não prestam atenção a sua família. Assim como seus amigos, Athena se tornou especialista em ignorar os pais para que possa focar no próprio smartphone. Ela passa boa parte do verão em contato com os amigos, mas, na maior parte o tempo, pelas redes sociais. “Eu fico com meu smarphone mais tempo do que com pessoas de verdade, e minha cama é quase como uma extensão do meu corpo”, diz ela.

Nesse aspecto, Athena também é uma garota típica. O número de jovens que saem com os amigos quase todos os dias caiu mais de 40% de 2000 a 2015, numa curva bastante acentuada nos anos mais recentes. Não é só uma questão de menos festas ou locais para se divertir; há menos jovens gastando tempo com saídas fora de casa, em todas as classes sociais, em todos os níveis educacionais. A pista de patinação, a quadra de basquete e a piscina do clube tem sido substituídas por espaços de convivência virtual, acessados por aplicativos ou pela internet.  

É de se esperar que os garotos estejam gastando mais tempo nesses espaços porque isso os faz feliz, mas a maior parte dos dados sugere que não. O survey Monitorando o Futuro, criado pelo National Institute on Druge Abuse para ter representatividade nacional, pergunta aos estudandos do 12º grau mais de 1.000 questões todos os anos, desde 1975, abrangendo os estudantes dos graus 8º e 10º, desde 1991. O survey perguntou aos jovens quão felizes estavam e também quanto do seu tempo despendiam em várias atividades, incluindo encontros face a face, exercícios e, nos anos recentes, atividades virtuais como redes sociais, conversas por aplicativo e navegação na internet. Os resultados não podiam ser mais claros: jovens que gastam mais tempo do que a média em atividades virtuais tendem a ser mais infelizes, ao contrário dos jovens que perdem mais tempo com esportes e interações face a face.

Não existe uma única exceção nesse aspecto. Todas as atividades virtuais estão relacionadas com menos felicidade, e as atividades e interações que se dão face a face se ligam com maiores níveis de satisfação. Estudantes do 8º grau que gastam 10 ou mais horas por semana em redes sociais são 56% mais inclinados a dizer que são infelizes do que aqueles que devotam menos tempo para as redes sociais. Pode parecer que 10 horas por semana seja muita coisa, mas aqueles que gastam seis a oito horas por semana nas redes sociais são 47% mais inclinados a responder que são infelizes do que aqueles que utilizam as redes ainda menos. O oposto é verdadeiro para as interações face a face: aqueles que gastam mais tempo do que a média com encontros pessoais com os amigos são 20% menos inclinados a dizer que se encontram infelizes do que os que se encontram com pessoas com frequência menor que a média geral.

Se você quer dar algum conselho para uma adolescente feliz baseado nesses dados, é bom ser direto: deixe o smartphone de lado, desligue o lap top e faça alguma coisa que não envolva uma tela. É claro que análises como essa não provam de maneira inequívoca que os dispositivos causam infelicidade; afinal, pode ser que adolescentes infelizes gastem mais tempo da vida online. Mas pesquisas recentes sugerem que o tempo gasto nas redes sociais causam, sim, algum nível de infelicidade. Um estudo pediu para que estudantes que frequentavam uma página do Facebook respondessem pequenos surveys nos seus dispositivos durante o curso de duas semanas. Eles recebiam uma mensagem de texto com um link cinco vezes por dia, e reportavam seu estado de humor e quanto haviam utilizado o Facebook. Quanto mais utilizavam a rede social, mas infelizes se sentiam, mas sentir-se infeliz não levava consequentemente a um maior uso do Facebook.

Redes sociais prometem nos conectar aos amigos. Mas o retrato que emerge dos dados a respeito da geração iGen é o de jovens solitários e deslocados. Adolescentes que visitam redes sociais todos os dias, mas que veem seus amigos pessoalmente com menos frequência, são mais inclinados a concordar com afirmações como “a maior parte do tempo me sinto sozinho, “ocasionalmente me sinto deslocado do mundo” e “gostaria de ter mais bons amigos”. O sentimento de solidão entre esses jovens atingiu o cume a partir de 2013 e permaneceu alto desde então.

Isso não significa que, no nível individual, adolescentes que gastam mais tempo online são mais solitários do que os que gastam menos tempo. Há jovens que gastam mais tempo nas mídias sociais, mas também mais tempo com encontros face a face. Na média, os adolescentes mais sociáveis o são nos dois tipos de interação. Porém, no nível geracional, quando jovens gastam mais tempo em smartphones e menos tempos em interações pessoais, a solidão se torna mais disseminada.

O mesmo acontece com a depressão. Uma vez mais, o efeito das atividades virtuais é induscutível: quanto mais tempo se gasta na frente da tela, maior é a possibilidade de relatar algum sintoma de depressão. Jovens do 8º grau que acessam muito as redes sociais aumentam os riscos de depressão em 27%, enquanto aqueles que praticam esportes, frequentam serviços religiosos ou mesmo fazem serviço de casa mais do que a média diminuem significativamente esses riscos.

Jovens que gastam três horas por dia ou mais em dispositivos eletrônicos são 35% mais inclinados a possuir um fator de risco de suicídio, como elaborar um plano para dar fim à própria vida. É muito maior do que o risco relacionado ao hábito de ver televisão, por exemplo. Desde 2007, os homicídios entre jovens vem decaindo, mas as taxas de suicídio aumentam significativamente. Na medida em que os jovens passam menos tempo juntos uns dos outros, diminuem as chances de conflitos violentos, mas também aumentam as chances de suicídio entre indivíduos cada vez mais isolados uns dos outros. Em 2011, pela primeira vez em 24 anos, a taxa de suicídio entra adolescentes foi maior do que a de homicídios para o mesmo grupo etário.

Depressão e suicídio podem ter muitas causas: o uso abusivo de tecnologia não é a única. E as taxas de suicídios de adolescentes já estavam altas nos anos 1990, muito tempo antes da existência dos smartphones. Porém, o número de norte-americanos que tomam medicamentos voltados para tratar depressões graves, não raro associadas com suicídio, aumentou em quatro vezes nos últimos anos.

Qual é a conexão entre os smartphones e os sintomas de stresse psicológico que essa geração vem experimentando? Por causa do seu poder de conectar jovens dia e noite, as redes sociais também exacerbam as preocupações típicas de adolescentes mais velhos de sofrerem exclusão do grupo. Os jovens de hoje podem ir para menos festas e gastar menos tempo em interações face a face, mas quando o fazem, documentam e publicizam esses encontros de maneira intensiva – no Spapchat, Instagram, Facebook, Whatsapp. Aqueles que não foram convidados para o evento logo percebem que não foram incluídos. Consequentemente, o numero de jovens que se sentem excluídos aumentou bastante em todas as faixas etárias.

É um problema particularmente significativo entre garotas. 48% delas diziam mais ocasionalmente que se sentem excluídas em 2015 do que em 2010, comparado com um percentual de 27% de diferença para o caso dos garotos. As meninas usam redes sociais mais frequentemente, aumentando as oportunidades para se sentirem excluídas e solitárias quando veem as amigas ou colegas de classe se divertindo sem sua presença. As redes sociais também aumentam a ansiedade das adolescentes que fazem as postagens das saídas, que esperam por comentários e confirmações do grupo mais amplo. Quando Athena posta fotos no Instagram, diz ela: “eu fico nervosa com o que as pessoas vão pensar ou falar de mim. Às vezes, sinto-me mal quando não alcanço um certo número de likes numa postagem”.

As garotas também respondem por um maior número de sintomas de depressão do que os rapazes de hoje. Os sintomas de depressão entre garotos subiram 21% de 2012 a 2015, enquanto as taxas aumentaram em 50% para o caso das garotas. Os suicídios, também, são mais pronunciados entre as jovens: ainda que as taxas tenham crescido para ambos os sexos, três vezes mais garotas entre 12 e 14 anos se mataram em 2015 em comparação com 2007, enquanto o crescimento da taxa entre os meninos duplicou. Normalmente, as taxas de suicídio são maiores para os meninos, que costumam utilizar de métodos mais letais, mas as garotas estão chegando cada vez mais perto.

Essas taxas também podem se dever à exposição maior ao chamado cyberbulling da parte das garotas. Meninos tendem a achacar os outros fisicamente, enquanto meninas costumam atacar o status social das outras ou seus relacionamentos pessoais. Nesse sentido, as redes sociais fornecem uma plataforma privilegiada para esse tipo de agressão, que potencializa as possibilidades de exclusão e ostracização de outras garotas.

As companhias responsáveis pelas redes sociais tem noção da magnitude desses problemas, e tem procurado desenvolver ferramentas de controle mais ou menos eficientes para prevenir o cyberbullying. Porém, as motivações são mais complexas do que se pode imaginar. Um recente documento publicado pelo Facebook indicava que a companhia estava procurando aprimorar a capacidade da ferramenta de apreender o estado emocional dos seus usuários pelo uso que faziam de suas próprias páginas, elencando mensagens adequadas para aqueles momentos em que as pessoas precisam melhorar a autoestima. O Facebook reconheceu a autenticidade do documento, mas negou que direcionava mensagens específicas para as pessoas baseadas na leitura de seus estados emocionais.

 

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Em julho de 2014, uma garota de 13 anos do norte do Texas acordou com o cheiro de algo queimando. Em cima da sua cama, um pequeno incêndio, provocado por uma sobrecarga no smartphone. O noticiário nacional transmitiu a história, alertando para os perigos de combustão espontânea dos dispositivos. Para mim, entretanto, o celular em chamas não era o único aspecto interessante da história. Por que, pensava eu, alguém dormiria com o celular em cima da cama? Não é como se você pudesse navegar na internet enquanto dorme. Então, como alguém poderia querer ficar assim, tão próximo de um telefone?  

Curiosa, perguntei aos meus estudantes de graduação da Universidade Estadual de San Diego o que eles faziam com seus aparelhos enquanto dormiam. As respostas que me deram delineavam uma obsessão. Quase todos dormiam com seus dispositivos, debaixo do travesseiro ou das cobertas, ou mesmo entre os braços. Eles checavam as redes sociais logo antes de dormir, e ligavam o telefone assim que despertavam pela manhã. O smartphone era a última coisa que viam antes do sono e a primeira coisa com que se deparavam ao despertar. Caso acordassem no meio da noite, era normal que dessem uma checada no aparelho. Alguns utilizavam a linguagem típica dos viciados. “Eu sei que não devo, mas simplesmente não consigo”, disse um deles, sobre colocar o telefone ao seu lado na cama. Outros enxergam no aparelho uma extensão do próprio corpo, ou mesmo como um amante – “deixar meu celular ao meu lado enquanto durmo é reconfortante”.

Pode ser que seja, mas os smartphones estão prejudicando o sono dos jovens, muitos dos quais agora dormem menos de sete horas por noite. Especialistas do sono dizem que adolescentes devem dormir nove horas por noite, pelo menos; aqueles que dormem menos de sete horas apresentam quadros graves de privação. 57% a mais de jovens tem apresentado déficit de sono em 2015, quando comparado com 1991. Em quatro anos, de 2012 a 2015, 22% a mais de jovens não tem conseguido dormir nem mesmo sete horas todas as noites.

É outra mudança que coincide com a disseminação dos smartphones no mercado americano. Dois surveys nacionais mostram que adolescentes que despendem três ou mais horas por dia em dispositivos eletrônicos apresentam 28% mais chances de dormirem menos de sete horas por noite, se comparados com aqueles que utilizam os dispositivos por menos de três horas diárias. Adolescentes que frequentam as redes sociais todos os dias tem 19% mais chances de sofrerem de privação de sono. Uma meta-análise dos estudos sobre dispositivos eletrônicos utilizados por crianças encontrou resultados parecidos: crianças que utilizam aparelhos de tela antes de dormir são mais inclinadas a dormir menos do que deveriam, usufruindo de um sono mais agitado; consequentemente, tendem a dormir durante o dia duas vezes mais do que as outra.

Dispositivos eletrônicos e redes sociais parecem exercer um efeito particularmente forte sobre as perturbações de sono. Adolescentes que leem livros e revistas mais ocasionalmente do que a média apresentam bem menos chances de sofrerem de algum tipo de distúrbio de privação do sono. Até mesmo assistir televisão por muitas horas no dia possui fraca relação com menos horas de sono.

Privação do sono, por sua vez, relaciona-se com uma miríade de problemas, incluindo comprometimento da capacidade cognitiva, susceptibilidade a uma série de doenças, ganho de preso e aumento da pressão sanguínea. Também afeta o humor: pessoas que não dormem tem mais propensão à depressão e ansiedade. Novamente, é difícil traçar uma causalidade exata. Smartphones podem estar causando problemas de sono, que levam à depressão, ou podem estar causando depressão, que leva aos distúrbios do sono. Ou então outro fator pode estar incidindo sobre os dois sintomas. Porém, o smartphone, com sua luz azul no escuro, parece estar desempenhando um papel nefasto nisso tudo.

A correlação entre depressão e o uso do smartphone é forte o suficiente para que pais não a ignorem e digam para seus filhos colocarem os aparelhos de lado. Como o escritor especialista em tecnologia Nick Bilton escreveu, é uma política que muitos executivos do Vale do Silício seguem com suas famílias. Até mesmo Steve Jobs limitava o uso que seus filhos podiam fazer dos dispositivos que havia criado.

O que está em jogo não é só a forma como as pessoas vivenciam a adolescência. A presença constante dos smartphones tende a afetar também sua vida adulta. Entre as pessoas que sofreram algum episódio de depressão, pelo menos metade deve se tornar depressivo em um momento posterior da vida. Adolescente é um período chave para o desenvolvimento de habilidades sociais: na medida em que jovens passam menos tempo com os seus amigos em interações face a face, possuem menos oportunidades para um pleno desenvolvimento. Nas próximas décadas, podemos ter adultos que sabem exatamente que emoji utilizar em determinada situação, mas não a expressão facial adequada.

Compreendo que a restrição da tecnologia pode ser uma demanda irrealizável para impor a uma geração de garotos tão acostumados a estarem conectados todo o tempo. Minhas três filhas nasceram em 2006, 2009 e 2012, respectivamente. Elas não estão maduras o suficiente para apresentar as características dos iGen, mas já posso ver como as novas mídias estão presentes nas suas vidas. Tenho observado como minha caçula, ainda desengonçada nos primeiros passos, interage com facilidade diante de um iPad. Tive de lidar com minha filha de seis anos pedindo para ter o próprio smartphone. Também assisti à primogênita de nove anos discutindo sobre o aplicativo mais recente do mercado antes do 4º grau. Retirar o telefone das mãos de nossas crianças vai ser difícil, mais do que o esforço de nossos pais de nos afastar da frente da MTV para pegar um pouco de ar fresco. Porém, há mais coisa em jogo agora, inúmeros benefícios que podem ser usufruídos se ensinarmos às crianças a importância da moderação. Efeitos significativos para a saúde mental e o tempo de sono aparecem depois de duas ou mais horas por dia de uso de dispositivos eletrônicos. A média dos adolescentes parece passar mais do que isso na frente dos smartphones. Alguns limites podem impedir os adolescentes de caírem em vícios perigosos para seu desenvolvimento.

Nas minhas conversas com jovens, tenho visto sinais esperançosos de que os garotos estão começando a ligar alguns de seus problemas atuais com o uso exagerado dos celulares. Athena me disse que quando passa mais tempo em encontros face a face com os próprios amigos, eles ficam mais tempo olhando para os próprios smartphones do que para ela. “Eu tento falar a respeito de algo, mas na verdade eles não estão olhando para mim”, disse ela. “Eles estão olhando para o seus telefones, ou para o seu Apple Watch”. “Como você se sente uando você está tentando falar com alguém face a face e ela não olha para você? “, perguntei. “Acho que dói um pouco”, disse ela. “Dói sim. Eu sei que a geração dos meus pais não fazia isso. Pode ser que seja algo super-importante para mim, e eles não estejam nem ao menos me ouvindo”.

Uma vez, ela me disse, estava saindo com uma amiga que estava teclando com seu namorado. “Eu estava tentando falar para ela sobre minha família, e o que estava acontecendo, e ela meio que só respondendo ‘Uhum, sim, que seja”. Então eu tomei o celular das mãos dela e atirei na parede.

Não pude deixar de rir. “Você joga vollei”, disse. “Você tem um braço bem forte, não?”. “Yep”, ela respondeu.

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